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Criticando a crítica (1)

Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2006 | 13h00

Ontem de manhã fui a Brasília para participar à tarde de uma mesa sobre a crítica, numa série de debates organizada por Maria do Rosário Caetano. Entrei numa roubada. Como sou meio desligado, não cuidei muito de saber o formato do tal debate. Haviam três painelistas e cinco debatedores na mesa. Eu era um dos últimos. Fui curto e grosso, até porque queria provocar uma discussão, mas minha participação resumiu-se àqueles cinco minutos. Se eu soubesse, teria falado outra coisa. Bem que tentei voltar a participar, mas não houve jeito e, depois, o debate ficou tão esquizofrênico que achei mesmo melhor ficar calado. Ouvindo e aprendendo – no geral, o que não se deve fazer, num debate ou na crítica. O curioso é que havia participado de outro debate, na Grécia, acho que na terça-feira. Éramos também muitos na mesa, mas no formato conduzido por José Carlos Avellar, que fazia a mediação, mesmo falando em inglês, para uma platéia internacional, todos conseguimos nos manifestar. Haviam, naquela mesa, representantes dos diretores, dos produtores e da crítica. Todos expuseram seu ponto. Houve protestos contra a diminuição do espaço de reflexão na imprensa diária, contra a ditadura do bonequinho e das estrelas como critérios de avaliação, mas o debate foi muito mais amplo e interessante na Grécia, fazendo a ponte da herança do Cinema Novo com a atualidade do cinema brasileiro da (e pós) retomada. A coisa começou ontem mal desde o princípio. Não discuto a capacitação da professora Ivana Bentes – longe de mim! –, mas há cinco anos ela teve um golpe de marketing de gênio e iniciou um debate fake como a cosmética da fome que estaria dominando o cinema brasileiro. Ivana iniciou o Muro das Lamentações contra a crítica diária, o assunto enveredou para uma interminável discussão do bonequinho viu, com defesa apaixonada do Zé José, do Globo, e Inácio Araújo saiu-se bem, dizendo que não havia impedimento ético em que críticos-realizadores, que inscrevem seus projetos nas leis de patrocínio, viessem a criticar depois os filmes dos vencedores de tais concursos. É o sistema vigente, e existem críticos e críticos. Há os que são preconceituosos e cheios de parti-pris mesmo quando não são realizadores cujos projetos foram negados. O assunto é complicado, reconheço. Aquela revista que você sabe vive criticando o cinema brasileiro porque, afinal, somos nós que pagamos os filmes, com a isenção fiscal que normatiza as leis de patriocínio. A idéia em pauta é sempre a mesma – você colocaria dinheiro no filme que viu? O debate, na verdade, deveria ser outro – o poder atribuído às diretorias de Marketing das empresas, que, no limite, são quem decidem de fato a quais filmes vão querer ligar seus nomes. Aí, ni nguém discute porque as diretorias de Marketing também decidiu a veiculação de anúncios na mídia e ninguém é doido de querer brigar com as empresas que pagam a conta. Quando se pensa que O Bicho de Sete Cabeças, da Laís Bodanzky, e Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, quase não foram feitos porque nenhuma empresa queria investir em ‘produtos’ com aquele perfil, a conclusão óbvia é que o sistema de distribuição de verbas, por mais importante que seja, tem algo errado no próprio princípio. Sensatamente, meu colega Luiz Zanin Oricchio, que estava na platéia, disse que esperava ouvir também uma discussão sobre estética, pois seria interessante discutir os critérios da crítica para sedimentar o ‘gostei/não gostei’. Ivana Bentes saiu-ase com uma pérola – se ela soubesse que era para falar sobre estética, teria preparado outra coisa. É a diferença entre a crítica acadêmica e a jornalística, diária. Nós trabalhamos permanentemente com a improvisação, mesmo arcando com a sua conseqüência direta, a imperfeição. O desafio é sempre buscar o grau zero de imperfeição, o que é impossível, reconheçamos. Este foi um assunto em pauta na maravilhosa Master Class de Walter Salles e Wim Wenders, que falaram de cinema on the road (de estrada) no Festival de Tessalônica. Wenders mostrou cenas de Movimento em Falso e disse que iniciou a produção com um plano de filmagem, mas sem roteiro. Walter Salles disse que o roteiro de Diários de Motocicleta previa imagens de Ernesto Guevara e seu amigo motocicleta em Cuzco e Machu Pichu – só imagens. A partir da descoberta do garoto, o guia, que levou às índias naquele pórtico, o episódio ‘cuzquenho’ de Diários evoluiu para 12 minutos. Misturo as coisas, mas sempre me parece que é essa a grande diferença entre a crítica acadêmica e a jornalística. Ambas envolvem riscos, claro, mas a gente trabalha, no jornal, no fio do tempo (e gosta que seja assim). A gente produz um texto para dali a meia-hora. Quando se pensa no complemento de um texto acadêmico, se o cara é rápido é preciso uma semana. E não me venham com a idéia de que a rapidez é sinônimo de leviandade.