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Luiz Carlos Merten

27 Janeiro 2012 | 09h23

TIRADENTES – Meu dia ontem foi agitado (como gosto), com direito a muitas matérias na edição de hoje do ‘Caderno 2’ e a debate à tarde, quando integrei a mesa que discuitia a crítica, com o dublê de crítico e cineasta Eduardo Escorel e Fábio Andrade. Fomos mediados por Francis Vogner dos Reis, que também faz a curadoria de uma das mostras de curtas. Fiz meu número e provoquei tantas risadas que me achei meio entertainer. O debate, creio, teria sido outro – mais grave, não necessariamente mais sério – se Jean-Claude Bernardet, inicialmente previsto para participar, estivesse na mesa. Fiz um registro público do que devo a Bernardet, não através de seus livros, mas do tempo em que ele era crítico da ‘Última Hora’, no começo dos anos 1960. Meu irmão trabalhava na Varig, à noite, no siswtema de comunicação entre os aviões e a base, e eu esperava sua chegada pela manhã porque Ildo sempre trazia os jornais que recolhia das aeronaves. Naquela época, jovem ainda, eu lia muito ‘Correio da Manhã’, ‘UH’, o ‘Estadão’ e os jornais norte-americanos, que me descortinavam um mundo com o qual mal podia sonhar. Me encantava ver, no ‘The New York Times’, todos aqueles anúncios dos filmes de Ingmar Bergman e Satyajit Ray, que só vi muito mais tarde. Bernardet escreveu na ‘UH’ sua crítica de ‘O Bandido Giuliano’, Salvatore Giuliano, de Francesco Rosi. Dividiu-a em não sei quantas edições, disse no debate que em quatro, mas agora acho que foram três. O texto me impressionou tanto, pela dupla abordagem, estética e política, que não duviudo que tenta sido meu modelo quando comecei a escrever, ainda incipientemente, no mural da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. A caverna de Platão, as sombras projetadas nas paredes, a gênese do cinema. Eu também comecei na parede, no mural. Presenciei, ao longo de minha vida – aos 66 anos, sou um sobrevivente -, muitas revoluções. Pertenço à geração de Gutemberg, minhas primeiras leituras foram de livros que adorava masnusear. Livros de aventuras, Edgar Rice Burroughs, Júlio Verne. A geração que veio depois de mim, de críticos e cineastas, foi influenciada pela TV e pelo vídeo. Ontem, aquela garotada que nos ouvia – a maioria nascida depois que comecei a escrever em jornais – já pertencia a outra era. Bye-bye analógico, viva o digital! No almoço, no indiano daqui, com Escorel, José Carlos Avellar e Pedro Butcher – sorry, Pedrinho, esqueci teu nome lá na mesa -, todos sacaram de seus celulçares e falavam em I-ped, I-pod, em textos que chegam por sei lá que programa. Neste sentido, sou um dinossauro. Essa modernidade não me assusta – entedia. Manuseio tanto certros livros que estou tendo de mandar fazer a reencadernação (a encadernação da encadernação) de dois. Mas isso que isso não me fecha os olhos para o que vejo aqui, na Mostra Aurora. Ontem, hasvia coleguinhas reclamando do que para eles era a falta de curadoria da Mostra, com a inclu8são de filçmes como ‘Entorno da Beleza’, de Dácia Ibipiana, e ‘HU’, de Hospital Universitário, dse Pedro Urano e Joana Traub Cseko. Não gostei do filme da Dácia e acho que, num certo sentido, o que ela mostra dos bastidores dos concursos de misses não vai além do que a imagina de folclórico ou do que a TV e os jornais reproduzem, como no recente concurso de ‘Miss Universo’ em São Paulo. Mas se o objetivo de Tiradentes é o encontro, e o debate, há algo ali muito interessdante para ser levantado no encontro da diretora com a crítica e o público, daqui a pouco. Há uma espécie de branqueamento das candidatas, à medida que o filme avança. As de pele mais escura vão meio que sumindo, e todas elas passam por um processo de homogeneização, por meio da maquiagem. É uma coisa do concurso, mais que do fil,me, mas está lá e isso pode parecer estranho, porque ou eu me engano muito ou ganhhou este ano uma garota negra, uma africana linda. Na sequência, devo ter sido o primeiro a fazer piada, observando para um colega, ao lado, que o próprio filme sobre a decadência do HU do Fundão precisava urgentemente de uma UTI. Existem coisas que me çpareceram absurdas. O aparelho do médico viaja pelo interior do corpo humano, desce pela traqueia e, eisensteinianamente, a montagem remete a encanamentos deteriorados. Falhas do tecido humano são comparadas a fissuras nas paredes etc. Mas há, ali, de repente, uma discussãso muito forte sobre a arquitetura e sua adequação, sobre a cidade e seu funcionamento. A arquiteta assinala a beleza do prédio, que absorve lições de Le Corbusier, mas essa beleza não é funcional para o objetivo com o qual foi construído.O gigantismo populista da era Vargas, o descompromisso com o popular da ditadura militar geraram um monstrengo inacabado que termina sendo implodido. O filme, na sua estrutura audiovisual – no desenho de som -, reflete sobre isso. Escrevi aqui, uma ideia que me veio a galope, a partir do curta de Marcelo Caetano, que ‘Balança Mas não Cai’, de Leonardo Barcelos, poderia ter outro título, ‘O Velho e o Novo’. É um tema que tem estado em discussão na laboriosa curadoria da Mostra Aurora. E eu posso não ligar para I-peds e I-pods, para tablets, mas me interessa muito viajar por essas imagens, tentar entendê-las. Disse ontem, numa entrevista, que tinha todas as certezas do mundo aos 20 anos, quando comecei a escrever sobre cinema. Quase 50 anos depois, elas viraram dúvidas. Comn ou sem tablet, venho a Tiradentes para aprender.

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