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Cultura » Crítica da crítica

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Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2008 | 18h38

GRAMADO – Saí agora de um seminário para discutir a crítica, que se seguiu à exibição, fora de concurso, do filme ‘Crítico’, de Kleber Mendonça. Entrei mudo e saí calado, só ouvindo o que diziam os coleguinhas (no diminutivo, mas não necessariamente pejorativo). É um tema complexo e tenho a impressão que o tenho abordado aqui, com alguma freqüência. Todo mundo se preocupa muito com a ‘crítica’, como se fôssemos uma massa informe, de gente pensando igual. O que diz a crítica de determinado filme? ‘A’ crítica somos várias cabeças pensantes, escrevendo em jornais, em espaços cada vez menores – mas o Caderno 2, do Estado de S.Paulo, ainda resiste -, ou então na internet, em blogs, mas não só neles, onde o número de ‘críticos’ não pára de aumentar. Sou pela democracia. Tem gente que reclama do excessivo número de opiniões, mais do que críticas, que circulam hoje em dia na internet. Eu não, tudo bem que não fico procurando, nem lendo, mas eu também comecei num mural de faculdade – a de arquitetura, em Porto Alegre, nos anos 60. Sei lá se alguém imaginava – eu mesmo, que estaria na ativa 40 anos depois, e vivendo disso. O seminário discutiu, sem chegar a lugar nenhum, se a crítica deve intermediar a relação do diretor (e do filme) com o público, se deve se manter à margem. José Carlos Avellar até sugeriu que a crítica pode (deve?) gerar um outro produto audiovisual. Um filme para criticar outro filme. Eu fora. Não tenho muita paciência. Sou, e nisso concordo com a definição que deu o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, um escritor de cinema. Nunca quis fazer um filme e, se tiver de criticar um filme com outro filme, o melhor é me aposentar. Uma idéia mais demente do que esta, para o meu gosto pessoal, só a do filme (‘conteúdos’, como se diz) para celular (que eu não uso, vocês sabem). Mas entendo a angústia dos outros, porque eu também a experimento. Vivo me questionando – em crise seria exagerado -; aqui mesmo em Gramado dei dezenas de entrevistas, para estudantes (e sites, e pequenos e grandes jornais), todo mundo me perguntando sobre o papel da crítica. Fico até embaraçado quando me perguntam se acho que a crítica influencia o público. Imagino que sim, talvez não o público, mas seu efeito pode ser devastador sobre o diretor (ou diretora). Reconheço as limitações da minha função. Não tenho a pretensão de fazer a cabeça de ninguém, embora eventualmente faça, porque tenho muitos encontros com pessoas que se definem como ‘almas gêmeas’. Se eu gosto de um filme, isso não aumenta a bilheteria (‘Encarnação do Demônio’ é um exemplo). Se não gosto, não creio que diminua. O que eu gosto de fazer é criar uma tensão que estimule as pessoas a verem (e a discutirem) os filmes. E gosto, aí sim, embora não seja minha função, de acreditar que posso exercer, como jornalista, um outro tipo de estímulo. Por exemplo, adorei quando Elda Couto, da PlayArte, disse que comprou ‘Meu Irmão É Filho Único’ baseada na minha indicação. É um risco dela (e meu), mas gosto tanto do filme que gosto de acreditar que muita gente talvez só o veja – e possa gostar dele – a partir dessa indicação, feita na base da brodagem. Hoje, já enviei e-mails para ver se ‘Perro Come Perro’ entra em outros festivais brasileiros, porque gostaria que minhas ‘almas gêmeas’ – e até os que me detestam – o vissem. Liguei para distribuidores conhecidos, sugerindo que comprem os direitos. Não creio que esteja atropelando a ética. É uma maneira a mais de compartilhar o meu amor pelo cinema. Falei com diretores sobre a maravilhosa atriz do curta ‘Espalhadas no Ar’. Já tem gente de olho nela e espero que deslanche na carreira. Talento e beleza não lhe faltam. Enfim, poderia ficar falando horas sobre a crítica, sem chegar a conclusões específicas. No jornal, o modelo de crítica é mais formal. No blog, é mais livre, falo na primeira pessoa – mas lá, na terceira, não sou menos ‘eu’. Porque as críticas que faço são para mim, para expressar o que penso da vida, dos filmes. E é por isso que, ao me apropriar dos temas e da estética dos filmes, ao escrever sobre uns e outra, não deixo de estar criando o ‘meu’ filme ideal na cabeça. Pensando assim – para que filmar? Eu? Faria um filme a cada… Quantos anos? De alguma forma, posso fazer vários por dia, no jornal e no blog.