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Luiz Carlos Merten

18 Março 2008 | 08h31

Existe um caso Edward Dmytryk no cinema norte-americano. O cara era considferado um cineasta promissor e aí, durante o macarthismo, dedurou os comunistas caçados pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas do Senado dos EUA. Elia Kazan também dedurou, e foi censurado por isso, mas Kazan, grande diretor de teatro (antes de chegar a Hollywood), esteve sempre um patamar acima de Hollywood. Fez filmes superpremiados no Oscar, gozava de prestígio. E Kazan, como conta a Michel Ciment no livro com a entrevista que lhe concedeu, pegou tal ódio pela ‘América’ que jurou a si mesmo que ia fazer filmes cada vez mais críticos e demolidores. Jurou e cumpriu. Sua carreira é uma das mais extraordinárias de Hollywood. Mais modesto, Dmytryk aceitou mais obras de encomenda e, basicament, fez filmes siobr personagens atormentados pela busca da segunda chance – era ele próprio tentando se redimir. Mas eu acho que já é tempo de dar a Dmytryk os louros que ele merece – ‘Os Insaciáveis, sua biografia não-oficial de Howard Hughes, é melhor do que ‘O Aviador’, de Martin Scorsese, e os dois westerns que ele fez nos 50, ‘A Lança Partida’, remake de ‘Sangue do Meu Sangue’, de Joseph L. Mankiewicz, e’Minha Vontade é Lei’ (Warlock), contam-se entre os melhores exemplares do gênero naquela década. ‘Warlock’ foi um raríssimo western daquela época a encarar o homossexualismo – a ligação de Henry Fonda e Anthony Quinn -, tratando como tragédia, ou pelo menos como drama, aquilo que Howard Hawks havia encarado como brincadeira (o exibicionismo das pistolas de MoOntgomery Clift e John Ireland em ‘Rio Vermelho’, no fim dos anos 40). E a história daquele homem comum (Richard Widmark) que pega em armas para livrar a cidade do pistoleiro que se erigiu em todo-poderoso (Henry Fonda) faz, não apenas a releitura de ‘Matar ou Morrer’, de Fred Zinnemann, como encerra uma reflexão muito crítica sobre o macarthismo. Pois bem – por que estou falando de Dmytryk? Por que a LUme está resgatando em DVD um dos filmes mais famosos do diretor. Nunca vi ‘O Preço de Uma Vida’, mas cresci, em Porto Alegre, vendo o P.F. Gastal, no ‘Correio do Povo’ e na ‘Folha da Tarde’, falando bem deste filme cada vez que deplorava a atitude do cineasta perante o macarthismo. ‘O Preço de Uma Vida’ é de 1949 e sua consciência social contribuiu pasra a fama de esquerdista de Dmytryk, que terminou por colocar o cineasta no banco dos réus do senador McCarthy. Acho que aquela geração no cinema norte-americano foi maravilhosa. Os que resistiram deram uma grande demonstração de integridade. Alguns dos que colaboraram (Kazan, Dmytryk) viraram personagens trágicos. E todos foram marcados pelo episódio. ‘O Preço de Uma Vida’ é interpretado por Sam Wanamaker e, se não me engano, Lea Padovani, que Dmytryk dirigiu mais tarde, de novo, em ‘O Santo Relutante’, um pequeno filme que me encantava quando eu era guri, por volta de 1960. Tem dois títulos em inglês. Um é ‘Giv Us This Day’ e o outro, ‘Christ in Concrete’, O Cristo de Concreto ou Cristo no Concreto, que eu acho que tem a ver com a história dos operários que comem o pão que o Diabo amassou na construção civil. Finalmente, vou poder ver ‘O Preço de Uma Vida’. O filme chega dia 21 às lojas. Vejam, também.

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