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‘Crime ao Amanhecer’

Luiz Carlos Merten

10 Janeiro 2011 | 10h29

Passei ontem à tarde, em casa, depois de almoçar no Shopping Eldorado com Lúcia e Érico, minha filha e genro. Fui fazer hora para o show de Nana Caymmi, às 6 da tarde, no Sesc Vila Mariana. Para não perder o hábito, dei uma zapeada e embarquei nas imagens de ‘September Dawn’, Crime ao Amanhecer. É a segunda vez que assisto, na TV paga, ao filme de Christopher Cain sobre o massacre de Mountain Meadows, atribuído aos índios, mas que, na verdade, foi cometido pelos mórmons, sob o comando do pastor Jacob Samuelson, interpretado por Jon Voight. Christopher Cain é pai de Dean Cain e ele faz um papel, embora a dupla de protagonistas, um casal de apaixonados, seja formada por Trent Ford e Tamara Hope. O curioso é que pego sempre o filme andando, e praticamente na mesma parte – o bárbaro massacre, quando a milícia dos mórmons convence a caravana de pioneiros a lhe entregar suas armas e, sob a alegação de que vai encaminhá-la para lugar seguro, a conduz diretamente para o massacre brutal. Christopher Cain com certeza viu ‘Quando É Preciso Ser Homem’, Soldier Blue, de Ralph Nelson, que tanta polêmica provocou por volta de 1970. Lembro-me que a crítica toda reclamava da excessiva violência da cena do massacre dos índios pela Cavalaria, que terminava com o herói, Peter Strauss, vomitando. Nelson estava querendo colocar na tela as atrocidades do massacre de My Lai, um dos mais bárbaros da Guerra do Vietnã. Leonard Maltin, em seu guia, diz que a cena é ‘unwatchable’ (impossível de olhar), mas Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, inicia o que se pode considerar um movimento de reavaliação do diretor. Não se pode esquecer que dois atores ganharam Oscars em filme por ele realizados – Sidney Poitier em ‘Uma Voz nas Sombras’ e Cliff Robertson em ‘Os Dois Mundos de Charlie’. Crítico em relação à mitologia do western, Nelson fez de Poitier o pistoleiro de ‘Duelo em Diablo Canyon’, que participa do resgate de brancos aprisionados pelos índios, e foi ainda mais longe em ‘Quando É preciso Ser Homem’, ao subverter os elementos tradicionais do gênero – desta vez, os massacres e estupros são cometidos pelos brancos. Contra a voz corrente, Tulard diz que ‘Soldier Blue’ mostra o potencial do diretor. Ele, com certeza, inspirou Cain, na forma de usar a música em dissociação com a violência da imagem. Como nunca vi o filme inteiro, nunca entendo as circunstâncias do massacre, mas Voight/Samuelson representa obviamente o fanatismo religioso, tão forte na construção da ideologia americana, e seus dois filhos, Jonathan e Micah, reencarnam os bíblicos Abel e Caim. Confesso que tenho uma quedinha por Christopher Cain. Revejo sempre ‘Os Jovens Pistoleiros’, quando o filme passa na TV, e ‘Crime ao Amanhecer’ me causa essa funda impressão. Queria compartilhá-la com vocês.