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Luiz Carlos Merten

25 Agosto 2009 | 00h12

Haveria tanto que falar sobre o Criança Esperança… Em todas as vezes que entrevistei Renato Aragão, o Didi, ele me deixou sempre claro quanto este projeto, que chegou aos 24 anos, lhe fala ao coração. Mas eu fiquei pensando… Com patrocínio – da Petrobras e da Tramontina – o Criança Esperança arrecadou no sábado, durante as três horas que durou o programa, cerca de R$ 5 milhões. Não pude deixar de pensar que o custo do programa, propriamente dito, deve estar em torno disso – ou todo mundo trabalha de graça? A Globo fatura em prestígio, por que não repassar tudo para a Unicef? Porque a idéia é o truismo, a solidariedade, o esforço coletivo e o programa – a festa – ajuda a celebrar tudo isso. Percebo a intenção, mas não fiquei 100% convencido. O programa, propriamente dito, teve coisas boas, outras menos boas e algumas francamente bregas, kitsches, dêem o nome que quiserem. Gabriel Villela compôs um lindo visual, cheio de referências – coloridas – com o pé na cultura popular, em torno de Milton Nascimento, que introduziu o tema do trem, da Maria Fumaça, fundamental no desenvolvimento do show. Fazia tempo que não via Milton. Achei-o mal, fisicamente, imobilizado naquele cenário, sem condições de se movimentar. Espero que tenha sido um equívoco meu. Gostei de duas apresentações – de Diogo Nogueira, cuja presença cênica, fundada na virilidade, me encanta desde que o vi num espetáculo no Sesc Pinheiros. No tal show, ele era cativante com a velha guarda do samba, todas aquelas velhinhas e também com as cabrochas, tratando as mulheres da maneira apaixonada que, tradicionalmente, os homens deveriam tratá-las. Diogo Nogueira daria um belo galã, com aqueles olhos claros. Em Hollywood, já seria astro. O outro destaque foi ela. O que é aquela Sandy? A menininha virou mulher, e uma bela mulher. Desasbrochou, além de cantar bem, muito afinada – ao contrário de Maria Rita, por exemplo, que até agora não sei o que cantou, porque não conseguia entender o que dizia, um problema que não se verificou com mais ninguém. Os filhos de Francisco, Zezé diCamargo e Luciano, apresentaram-se acompanhados de crianças surdo-mudas. Chorei feito um condenado. Havia um menino, bem na frente, negro – perdão, afro-brasileiro. Estava ali feliz, participando de um projeto que visa a integração social. Imagino que seus pais estejam fazendo das tripas coração para que a deficiência do filho não impeça seu desenvolvimento como pessoa humana. Mas não pude deixar de chorar por aquela beleza, aquela pureza, não perdida, não é isso. É que, às vezes, me parece tão injusto. Logo eu, que também sou deficiente… Sei que não é fácil, nunca é, nem para quem é ‘normal’. Naquele grupo havia também uma menina. Transformando em sinais a letra cantada pela dupla, ela fazia um gesto tão visceral – a emoção fluindo de seu coração -, que aquilo me deu um nó. Gabriel Villela me confessou que teve a mesma sensação. Viajei e meu imaginário me levou a um grande filme dos primórdios da carreira de Arthur Penn, que vi ainda bem jovem, no começo dos anos 60, ‘O Milagre de Anne Sullivan’. Como a professora interpretada por Anne Bancroft arrancava das trevas – cega, surda e muda – a pequena Helen Keller e dotava a menina, que parecia um bicho, de uma linguagem, iniciando seu processo civilizatório. As duas, Anne e Patty Duke, ganharam os Oscars (de melhor atriz e melhor coadjuvante). Poucas vezes os prêmios foram tão merecidos. O Criança Esperança me jogou de volta no cinema. É um vício, uma deformação. Termino sempre filtrando minhas experiências pela emoção funda que me causa o cinema.