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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2010 | 14h15

Saio daqui a pouco da redação do ‘Estado’ para assistir a ‘De Pernas pro Ar’. Espero me divertir com a comédia de Roberto Santucci, mas antes acrescento um post que me sai do fundo do coração. Fui rever ‘O Concerto’ em Porto e gostei ainda mais do filme de Radu Mihaileanu, que estreou na sexta-feira passada, no apagar das luzes da temporada de 2010.  Foi a última grande estreia do ano, porque nesta não teremos nada tão expressivo. Havia dedicado a capa do ‘Caderno 2’ ao filme que vi duas vezes – no cinema, em Paris, e numa versão reduzida, nos aviões da Air France. ‘O Concerto’ é da mesma vertente de ‘O Trem da Vida’ na obra do autor. Encanta-me a riqueza de observação de Mihaileanu, a forma sucinta como ele, com duas ou três pinceladas, usa seus personagens para traçar um vasto painel da  ‘condição humana’. Judeu de ascendência romena, criado na França, ele traz para o cinema essa singular característica da cultura judaica, que consiste em rir dos outros, mas principalmente de si mesmo. Mihaileanu é mestre do chiste, o dito espirituoso, que tanto pode ser piada ou frase de efeito cômico. O judeu e o filho que vão para Paris, integrando a orquestra – o pai leva uma mala de caviar, que não interessa a ninguém; o filho vende celulares chineses. Aquilo é muito engraçado – Hollywood talvez achasse politicamente incorreto -, mas quando eles chegam atrasados para o concerto, atrasados e atrapalhados, o humor cede espaço para outra coisa, o sublime, quando Anne-Marie, a violinista, seguindo as anotações de Léa, sua mãe, toca a perfeição no concerto de Tchaikovski, aquela perfeição que o maestro dedicou sua vida a perseguir e que atinge, depois de ter sua busca truncada por 30 anos. É emocionante. Merten, mais uma vez, crê em lágrimas, a boa e velha catarse, mas não bastam as lágrimas espontâneas, que escorrem, independetemente de a gente querer ou não. ‘O Concerto’ me dá vontade de chorar alto, de urrar, um choro para ninguém botar defeito. E tem a atriz. Mélanie Laurent interpreta, basicamente, a mesma personagem que faz em ‘Bastardos Inglórios’, de Quentin Tarantino. Como é boa, a Mélanie. Linda e talentosa. Vou ver o filme de novo, para tentar colocar meu foco só nela. O problema é que ‘O Concerto’ é tão denso e os personagens tão maravilhosos – o materialista russo que agradece a Deus pelo ‘milagre’ – que já tentei. Não consigo colocar meu foco só em Melanie, por melhor que seja. Quando vejo, estou viajando nas emoções do novo Mihaileanu.