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Luiz Carlos Merten

07 Maio 2012 | 18h53

Ainda não tive tempo de postar que ao chegar em casa, do Recife, me esperava o pacote de maio da Lume. Só ‘Quem se Lembra de Dolly Bell?’, de Emir Kusturica, já valeria a lembrança, mas somar a este belo filme ‘O Mensageiro do Amor’ é covardia. ‘The Go-Between’! Joseph Losey! Existem filmes que marcam a vida da gente. Julie Christie como flor venenosa que Leo, adulto, lança ao esgoto. Que que é aquilo, meu Deus? Joseph Losey iniciou com ‘The Servant’, O Criado, a parceria com Harold Pinter, que prosseguiu em “The Accident’, Estranho Acidente, e “O Mensageiro do Amor’. Tem gente que supervaloriza ‘O Criado’. O próprio Losey, no livro com a entrevista que concedeu a Michel Ciment, não é que miminize o filme – afinal, uma obra-prima -, mas ele observa que, na época, ainda não entendia suficientemente a sociedade inglesa e, por isso, acha que cometeu certos pecadilhos. Losey, o mais marxista e brechtiano dos grandes autores (mais que Sergei M. Eisenstein?), achava que enfatizou certos aspectos da luta de classes em que a conformação particular da sociedade britânica exigia mais sutileza. E ele próprio dizia que filmou mal a cena do confronto entre o criado, Dirk Bogarde, e a lady, mulher de James Fox. Bastaria uma inflexão de voz, um gesto, para que ela o enquadrasse ou a cena teria de ser feita de forma diferente. Me encanta ‘Accident’, com sua estrutura ‘marienbadiana’ para contar a história do professor de Oxford (Dirk Bogarde) que se envolve com aluna (Jacqueline Sassard) e o filme examina relações de casais, investigando personagens por meio de seus pensamentos e ações. Usei premeditadamente a definição de filme marienbadiano, e a presença de Delphine Seyrig não é casual, embora ela não pudesse estar mais diferente, loira e ‘banalizada’, do que no cult de Alain Resnais. De todos, ‘O Mensageiro do Amor’ é o que mais me fascina. O título originasl se poderia traduzir, literalmente, como ‘O Intermediário’. Garoto serve de leva e traz para a relação de uma aristocrata com camponês e o affair termina de forma trágica, o que ele, Leo, o menino, só tem condições de avaliar muito mais tarde. O filme é de época e foi durante a preparação e filmagem que Losey e Pinter resolveram adaptar ‘Em Busca do Tempo Perdido’, de Marcel Proust, que já era um projeto sonhado de Luchino Visconti (com roteiro de Suso Cecchi d’Amico). Losey em ‘O Mensageiro’, Visconti em ‘Morte em Veneza’ (e ‘O Leopardo’) mostraram cada um que tinham condições de levar para a tela o complexo mundo de Proust (com seu tempo reencontrado). O problema é que seriam filmes caros e um inviabilizou o projeto do outro. Losey ganhou a Palma de Ouro em Cannes, 1971, e no mesmo ano Visconti ganhou um prêmio especial, o do 25.º aniversário do festival, por “Morte em Veneza’. Um achava que havia tirado o brilho do outro e isso só fez aumentar o ódio recíproco. Eu, que amo Visconti, nunca precisei tormar partido. ‘Na verdade, até prefiro ‘O Mensageiro do Amor’ a ‘Morte em Veneza’, que é muito bonito, mas não é um de meus Viscontis preferidos. Escrevi um texto para a edição do ‘Caderno 2’  de amanhã sobre música e cinema pegando carona numa entrevista de Antônio Gonçalves filho com Alexandre Guerra, o compositor de ‘Quem se Importa?’, de Mara Mourão. Mesmo não gostando muito da adaptação de Thomas Mann, poderia ter feito o texto inteiro – e aqui acrescentado posts e posts – sobre o uso que Visconti faz da música de Gustav Mahler. Coisa de louco! De volta a “O Mensageiro do Amor’, Julie Christie, Alan Bates, Margaret Leighton, Michael Redgrave e o garoto Dominic Guard. Puta filme, daqueles que justificam uma arte, o cinema.