Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Corte Seco’

Cultura

Luiz Carlos Merten

15 Março 2010 | 12h56

Não consegui ver ontem ‘Testemunha de Acusação’, no ciclo Courtroom Drama, na Galeria Olido, mas vi coisa muito melhor. Talvez exagere, porque, afinal, Billy Wilder, Charles Laughton, Marlene Dietrich e Tyrone Power… Mas ‘Corte Seco’ me surpreendeu e encantou. Assisti à criação da Cia. Vórtice e fiquei chapado com o novo trabalho de Christiane Jathay. Havia encontrado a Chris no Festival de Tiradentes, onde assisti de novo ao filme dela, ‘A Falta Que Nos Move’, que já conhecia do Festival do Rio. Não gosto particularmente da ‘Falta’, e ela sabe disso, mas ‘Corte Seco’ me apanhou. Criação coletiva, mas com firme concepção e direção de Chris Jatahay, o espetáculo não deixa de formar uma trilogia com ‘Conjugado’ e ‘Falta’, mas a diferença é que o método volta aqui à origem, ao palco, e é no palco que funciona. Eu às vezes acho que tenho certa má vontade com criações coletivas. Reconheço que parece absurdo, e é, mas não me agrada a mistificação do coletivo, como se fosse, por si só, mais significativa do que formas tradicionais da criação teatral. Até brinquei com meu amigo Dib Carneiro Neto, que é autor de teatro – e muito bom, eu diria até grande. Será que se, na Grécia antiga, coletivos criassem as tragédias, elas teriam chegado até nós como as poderosas obras de Sófocles, Eurípedes e Aristófanes que tanto nos fascinam? Minha c olega Beth Néspoli, que reza pela cartilha do coletivo, é capaz de chiar se eu disser, o que vou fazer agora, que o coletivo da Chris é o melhor que vi nos últimos tempos. No programa da peça, está lá – ‘Corte Seco’ teve como inspiração Benjamin, Bauman, Carver, Auster, Joyce, Altman e outros que fizeram cortes e iluminaram os caminhos. Entre esses outros, claro, está Sinisterra, que definiu a dramaturgia atoral como um território de pesquisa e criação, no qual a capacidade do ator ‘deve se submeter à organização de um modelo situacional pré-estabelecido e em que, entre seus limites, se possa encontrar novos âmbitos de liberdade criativa’. No cinema, não adianta, por mais liberdade que a diretora outorgue a seus atores/autores, o que amarra o filme, na montagem, é o seu olhar. Em ‘Corte Seco’, Chris interfere como nenhum outro diretor – ou diretora – de teatro de que me lembre. Ela fala com o público e, enumerando as cenas, muda o espetáculo nosso de cada dia, mas, no limite, por mais que a concepção e direção sejam dela, é aquele elenco maravilhoso que constrói o espetáculo, na dinâmica com a plateia. Tenho o maior respeito por Eduardo Moscovis. Galã global, ele se integra e sujeita à disciplina do grupo, não brilhando nem um paetê a mais do que Branca Messina, Cristina Amadeo, Felipe Abib, Leonardo Netto, Marjorie Estiano, Paulo Dantas, Ricardo Santos, Stella Rabello e Thereza Piffer. É legal que o programa evoque Steve Carver e Robert Altman, porque tenho a impressão que, conscientemente ou não, os ‘short cuts’ de ambos, as cenas da vida, é que fornecem o farol do espetáculo. O casal em crise em pleno processo de adoção, o confronto entre os irmãos, entre mãe e filha, havia em tudo uma emoção intensa, à flor da pele. Um ator (personagem?) interpela a diretora, outro se pergunta do que o público está rindo (porque a cena não é para rir). Nada me pareceu agressivo nem feito para épater, como se a gente fosse burguesinho de m… que precisa ser sacudido por outros burguesinhos mais de m… ainda e que, na maioria das vezes, me parecem amadores sem nenhuma noção do que seja profissionalismo. E tudo em 80 minutos cravados, graças a um elaborado e rigoroso exercício de síntese. Para que fazer em quatro horas o que se pode concentrar em menos de uma? Foi como se Chris Jathay estivesse me devolvendo, como de fato devolveu, o aspecto lúdico do teatro em seu diálogo com o cinema, por meio daqueles telões (e não apenas por eles). E a integração de ‘Blue Moon’ à trilha… Foi uma ótima retomada do teatro, a que ainda não tinha ido este ano, aqui em São Paulo, de tanto que viajei. Sorry, mas foi o último fim de semana de ‘Corte Seco’. Minha modesta indicação não serve mais para os paulistanos, mas servirá para os pernambucanos, porque ‘Corte Seco’ estará a partir de quinta no Recife. Ontem, no fim do espetáculo, conversava com integrantes da equipe e o material já estava sendo embarcado no caminhão que partiu agora de manhã. Espero que a impressão forte que o espetáculo me causou permaneça até o fim do ano – e também com os coleguinhas que vão votar na categoria, na APCA.