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Luiz Carlos Merten

12 Março 2007 | 10h52

Dei uma conferida rápida nos comentários e parei tudo. Estou no jornal, saindo para resolver um assunto importante (a emissão de um novo passaporte), mas quando o assunto é Richard C. Sarafian não deixo para depois. Comentando o meu post sobre Thelma e Louise à beira do abismo, Antônio José de Carvalho faz a ponte com o final de Corrida contra o Destino, quando o carro de Kowalski explode contra aquela barreira. Muito bem colocado o comentário dele. E eu amo Corrida contra o Destino, Vanishing Point. É um dos meus cults mais queridos. No começo dos anos 70, Sarafian esteve a ponto de se transformar no maior diretor do cinema americano, com dois grandes filmes que fez sucessivamente. Primeiro, Corrida contra o Destino, que segue a vertente da contestação e do filme de estrada, indo muito além, por exemplo, de Sem Destino, que virou marco da contracultura. Depois, Sarafian fez Man in the Wilderness, que se chamou Fúria Selvagem, no Brasil. Richard Harris faz aquele homem que ressurge da própria morte, obcecado por vingança, e que caça os antigos parceiros que o abandonaram, perseguindo John Huston que carrega aquele navio por terra, em pleno Oeste selvagem, antecipando o Klaus Kinski de Fitzcarraldo, de Werner Herzog. Amava aqueles dois filmes e nunca entendi direito o que se passou com Sarafian, mas sei que durante a filmagem de The Man Who Loved Cat Dancing, com Sarah Miles e Burt Reynolds, roteiro de Eleanor Perry, houve um incidente grave, um stunt foi morto numa trama parece que de adultério. Sei que o escândalo foi abafado – Sarah era mulher do roteirista Robert Bolt, na época, mas não entendo direito que reflexo isso teve na carreira de Sarafian. Só sei que ele, depois de um brevíssimo apogeu, iniciou uma queda vertiginosa. Engraçado, na semana passada, quando fui redigir minha crítica sobre Hollywoodland, no Caderno 2, me lembrei desse episódio obscuro e do efeito que teve sobre Sarafian. É uma coisa que me fascina. Sou louco por esses grandes diretores obscuros, não aqueles que, no fundo, viraram unanimidades de pequenos grupos de entendidos – Joseph H. Lewis, Edward Ludwig, Edgar G. Ulmer. Gosto do Sarafian, de quem ninguém fala, do Gordon Douglas, que atravessou os anos 50 e 60 fazendo filmes maiores do que muito talento consagrado de Hollywood e ele lá, um grande artista, um autor, confinado na etiqueta de artesão. Essas histórias mexem comigo. The Man Who Loved Cat Dancing chamou-se, no Brasil, Amor Feito de Ódio. E quero só contar uma historinha sobre Corrida contra o Destino, que vi em Porto Alegre, no antigo cine Imperial. Kowalski, Barry Newman, cai na estrada, perseguido pela polícia e guiado pelo DJ negro e cego. O desfecho é naquela barreira, contra a qual ele se lança, para a morte, uma coisa que evoca O Estrangeiro, de Camus. A historinha é a seguinte. Quando ocorre a explosão, um daqueles gauchões na platéia berrou – ‘Bá, errou!’ Não entendeu nada, ou sei lá que filme construiu na cabeça, mas sempre me lembro do episódio.