Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Correndo atrás do prejuízo

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Outubro 2011 | 13h38

RIO – É impressionante como o efeito cascata pode complicar a vida da gente. Na quinta, nem me lembro por quê – ah, sim, o texto para a edição de domingo do ‘Caderno 2’, que tive de reescrever na sucursal -, havia perdido a sessão oficial de ‘Corações Sujos’. Para ver o filme de Vicente Amorim, na sexta, perdi a gala de ‘A Hora e a Vez de Augusto Matraga’, de Vinicius Coimbra. Como havia tido mediação de debate, à tarde, também perdi o documentário de Isa Ferraz, ‘Marighella’. No sábado assisti aos dois, mas aí perdi ‘Amanhã Nunca Mais’, de Tadeu Jungle. Assisti a todos esses filmes no armazém 6 do píer da Praça Mauá, sede do festival. Havia dito que não estava gostando muito da Première Brasil deste ano. Algo se passou a partir de quinta-feira. A organização deixou os melhores filmes para a reta final. Começou com ‘Sudoeste’, de Eduardo Nunes, e aí vieram ‘Matraga’ e ‘Amanhã’. Provoquei Vinicius Combra no debate. Como diretor de novelas, na Globo, ele era, automaticamente, o suspeito de sempre. Sua mulher, a roteirista Manuela Dias – de ‘O Transeunte’, de Eryk Rocha -, me disse depois que quase pediu a palavra para desabafar sobre o preconceito contra os globais. Manuela participou de todo o processo criativo de ‘Matraga’. No início, Vinicius queria fazer ‘Campo Geral’, narrativa de ‘Miguelão e Miguilim’, ou seja, outro Guimarães Rosa, mas aí, depois de trabalhar um bom tempo no projeto, descobriu que os direitos estavam com Flávio Tambellini, para um filme de Sandra Kogut. Vinicius Coimbra voltou-se então para ‘Matraga’. Chamei-o de louco, por ousar refilmar um filme considerado clássico (de Roberto Santos) do cinema brasileiro. Ele corrigiu – louco, não, irresponsável. talvez. A primeira coisa que fez foi assistir ao ‘Matraga’ anterior. Como disse, Rosa oferece múltiplas leituras, e a dele é outra. Gostei do filme e desafio quem quer que seja a tentar desacreditar o novo ‘Matraga’ pela via mais fácil, a de que sua linguagem é televisiva. Sorry, mas não é. E o João Miguel é foda, me desculpem, no papel. Ele poderia ser muito bem o melhor ator do festival – Camila Pitanga seria minha melhor atriz, por ‘Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios’, de Beto Brant e Renato Ciasca -, mas confesso que vou torcer por Lázaro Ramos, de ‘Amanhã Nunca Mais’. O filme de Tadeu Jungle tem uma pegada meio ‘Depois de Horas’, lembram-se do cult de Martin Scorsese? Lázaro faz um homem, um anestesista, que perdeu o controle da própria vida. Todo mundo abusa dele e a situação se complica quando ele sai do hospital às pressas para passar na doceira e pegar o bolo de aniversário da filha. Dá tudo errado, a narrativa vira um pesadelo até o momento em que o protagonista põe o pau na mesa e retoma o controle. Eu seria capaz de me ajoelhar diante de Lázaro para saudar a cena chave, o meio sorriso, quando ele percebe que está de novo senhor de si. ‘Amanhã’ estreia dia 11/11, com ‘Os 3’, de Nando Olival, que passsou fora de concurso no domingo à noite. O filme não levou nada em Paulínia. Aqui, talvez levasse de cara o prêmio do público. Tudo bem, perdi a sessão do ‘Matraga’, mas o aplauso do público para ‘Os 3’ foi o maior do festival, nas sessões do Odeon. Triângulo amoroso, dois homens e uma mulher, lembra o quê? ‘Jules e Jim’, de François Truffaut. Nando Olival sabe disso. Logo no começo, o trio corre numa plataforma. A cena evoca um momento idêntico com Jeanne Moreau, Oskar Werner e Henri Serre e, como lá, o som dos passos é tão forte quanto a imagem, propriamente dita. A novidade é que, em ‘Os 3’, os protagonistas se envolvem num reality show, pela internet, e o filme discute os limites entre realidade e ficção. Embora o filme seja bem-feito, charmoso, divertido, confesso que algo ali me embaraçou. Não consegui embarcar no conceito, mas vou dizer. Se o filme estivesse em concurso, Juliana Schalch (está certo?), mais do que a Simone Spoladore de ‘Sudoeste’, seria a única a me fazer vacilar sobre o acerto de atribuir o Redentor a Camila Pitanga. E isso não representa pouco.