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Correções. E a importância do toque em Todo o Dinheiro do Mundo

Luiz Carlos Merten

01 Fevereiro 2018 | 12h30

Lá vou eu fazer correções, no plural. O livro do Tico, que citei num post anterior, ainda falando sobre Madrigal para Um Poeta Vivo, é As Núpcias do Escorpião, não As Bodas, curioso ato falho que, querendo dizer praticamente a mesma coisa – o compromisso -, estabelece diferença. Quanto à atriz de Rebento, chama-se Ingrid Trigueiro, com O. Quer dizer que coloquei com A? Trigueira sugere alguma outra coisa. Curioso… Mas a verdade é que me lembrei dela ao ver ontem Todo o Dinheiro do Mundo. Não sei se ficou claro no texto desta quinta no jornal, mas Ridley Scott, de certa forma, fez o seu Cidadão Kane, ao qual agregou elementos de A Doce Vida e Lawrence da Arábia. Michelle Williams faz uma mãe que, tendo o filho sequestrado e ameaçado de morte, procura manter o (auto)controle. É curioso como Todo o Dinheiro termina sendo (também) sobre o toque. Michelle impede Chace/Mark Wahlberg de levantar o pano que cobre o que talvez seja o cadáver de seu filho. E quando Chace puxa o velho Getty, o olhar de Christopher Plummer para a mão do outro representa a própria perda. Ele começa a morrer naquele momento, quando sua inviolabilidade cai por terra. Enfraquece, cede. Lembrei-me de Alexander Sokurov, O Sol, quando o imperador do Japão, considerado sagrado por seus súditos, aceita as condições impostas pelo inimigo vitorioso e que o transformam em simples mortal. É curioso como nesse mundo global persistem vestígios de feudalismo. Em Tóquio, os jardins imperiais foram abertos ao público há algumas semanas e formaram-se filas quilométricas. Caiu a cidadela proibida japonesa, e o público, em pleno século 21, pôde ver a ‘ilha’ perfeita em que a família real vivia como numa bolha, apartada dos homens. Juro que não consigo quantificar quão bom me parece Todo o Dinheiro – o melhor Ridley Scott em décadas -, mas o que sei é que os filmes que me parecem mais interessantes, estética e politicamente, nesse Oscar, não são necessariamente os que estão (mais) indicados nas diferentes categorias. O Christopher Nolan, Dunkirk, que está lá para constar. O Steven Spielberg, The Post, também. E Mudbound, Me Chame pelo Seu Nome, Todo o Dinheiro do Mundo. Vendo como Christopher Plummer cria John P. Getty – a rigor, acho que era Jean-Paul -, me bateu que o filme talvez fosse muito diferente com Kevin Spacey. Mais cínico, talvez. Christopher, com seu rosto esculpido em bronze – reparem no final -, lhe confere uma aura trágica, um perfume de morte. E olhem que eu não tenho dúvida de que Spacey, mesmo nunca tendo gostado muito dele, é superior (demais!) como ator ao agora velho Capitão Trapp. Charlie Plummer, que faz o neto sequestrado, não tem parentesco com Christopher. É bom, muito bom. E o filme, embora baseado em fatos, é uma fantasia para dizer algumas coisas sobre o poder do dinheiro. O velho Getty não morreu daquele jeito, naquele momento. O neto não teve a vida venturosa que o desfecho sugere. Fui procurar e fiquei chocado. John P. Getty III morreu em 2011, aos 54 anos. Como consequência de um derrame que sofreu em 1981, passou 30 anos entrevado numa cadeira de rodas. Que carma! Encontrei uma frase dele que me impressionou muito. “Os ricos são os pobres da Terra. São uma minoria cuja desnutrição vem do espírito.” De sofrimento, ‘Paolo’ entendia.