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Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2006 | 10h51

No começo dos anos 30, Fritz Lang abandonou a mulher, Thea Von Harbou, nacional-socialista de carteirinha, e fugiu da Alemanha nazista, onde Goebbeles queria transformá-lo no cineasta oficial do regime. Sua primeira escala foi na França, onde o que talvez seja seu filme menos conhecido, Liliom, com o título de Coração de Apache, é de 1933. Passa hoje às 14h10 na TV paga, no Telecine Cult. Lang havia feito, dois anos antes, sua obra-prima da primeira fase alemã – M, o Vampiro de Dusseldorf, com a extraordinária interpretação de Peter Lorre. Em 1936, com Fúria, iniciaria a fase americana, que soma mais da metade de sua obra, o que nunca impediu os críticos de consideraram o Lang hollywoodiano de alguma forma menor. Peter Bogdanovich escreveu um livro de entrevistas, Fritz Lang na América, para debater, com o próprio autor, cada um de seus filmes americanos. O livro é um monumento comparável a Hitchcock Truffaut e deveria estar na estante de todo cinéfilo que se preze. Bogdanovich diz aquilo que é evidente, mas muita gente se recusava a admitir – na grande fase expressionista ou na hollywoodiana, trabalhando para os grandes estúdios, Lang sempre foi um insuperável criador de pesadelos. M é exatamente igual (mas diferente) de Moonfleet (O Tesouro do Barba Rubra), com Stewart Granger, de 1954, que também é uma obra-prima, por mais que se possa ter apreço por outros filmes americanos do grande diretor – O Diabo Feito Mulher, Só a Mulher Peca, A Gardênia Azul, Os Corruptos, Desejo Humano e No Silêncio de Uma Cidade. Lang encontrou no melodrama e no cinema de ação veículos perfeitos para seu tema do indivíduo em luta contra as forças (o destino?) que querem destruí-lo. Liliom, para voltar ao filme de hoje do TCC, baseia-se em Ferenc Molnar e conta a história de assaltante que se mata após fracassada tentativa de roubo de banco. Chegando ao céu, descobre que só ganhará suas asas de anjo se cumprir uma ação específica, e para isso terá de retornar à Terra. Não parece um tema muito langiano, mas há uma descrição muito interessante do meio social. Nem na França, hoje em dia, as pessoas se referem ao gigolô, explorador de mulheres, como ‘apache’, mas era assim que ele era chamado em Paris, na virada do século passado. Vinte anos depois, com Amores de Apache (Casque d’Or), de 1952, Jacques Becker fez o filme definitivo da tendência. Simone Signoret e Serge Reggiani interpretam o clássico de Becker. Charles Boyer e Madeleine Ozeray estão no de Lang. Na verdade, pode-se dizer que Liliom foi o passaporte de Lang e de Charles Boyer para Hollywood.

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