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Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2008 | 22h03

Quem foi que me cobrou uma opinião sobre ‘Velha Juventude’, o ‘Youth without Youth’ de Coppola, ao qual assisti no meu último dia no Festival do Rio? Corri para olha a relação dos filmes da mostra e não achei o de Francis Ford, só ‘O Poderoso Chefão’, a primeira parte. Fiquei muito perturbado com ‘Velha Juventude’, mas não creio que seja um filme para se ver só uma vez, antes de falar (ou escrever) sobre ele. Saí do cinema achando tudo muito complexo, mas depois de pensar um pouco as coisas começaram a se encaixar e me pareceram até simples. Um filme sobre a linguagem e o tempo. Uma súmula, pelo próprio Coppola, de sua obra. Não sou o maior fã do mundo de ‘Apocalypse Now’. Prefiro a trilogia do ‘Chefão’, inclusive a terceira parte, o ‘Rei Lear’ de Coppola e Mario Puzzo, que acho o ‘sommet’ da saga, mesmo sabendo quer o primeiro filme, cuja versão restaurada vai passar na mostra, tenha sido considerado numa pesquisa recente como o melhor filme de todos os tempos. Acho que nenhum outro diretor nas últimas três ou quatro décadas décadas tenha encarnado tanto, como vou dizer, as nossas expectativas sobre o cinema. Coppola ousou, tentou, experimentou mais do que ninguém. No começo dos anos 80, com ‘O Fundo do Coração’, ele já havia inaugurado sua era do vídeo, cuja culminação agora é justamente ‘Velha Juventude’, feita em alta definição. Não sei muito sobre a origem, mas sei que Coppola tinha este projeto, ‘Megalópolis’, sobre um homem que consegue parar o tempo. Ele não desistiu dele, mas chegou a um impasse no roteiro e resolveu congelá-lo por alguns anos. Mas, em busca de opiniões, consultou uma asntiga colega que agora é professora de límnguas e religiões indianas em Chicago, e foi ela quem lhe recomedndou a leitura do livro de Mircea Eliade que deu origem a ‘Velha Juventude’. Um homem é atingido por um raio e rejuvenesce, mas mantém a lembrança dos seus 70 anos – e o tema de ‘Peggy Sue, Seu Passado a Espera’, não? Esse homem virta pesquisador de linguas e fica obcecado por se trabalho, como o herói de ‘A Conversação’. O que ele tenta escrever é um livro sobre o surgimento da linguagem oral e, para isso, viaja no rio do tempo, que também pode ser o da morte (Apocalypse Now’). Uma mulher lhe fornece a chave e ele busca reencontrar nela o amor que perdeu no passado (‘Drácula’). Mas chega o momento em que ele tem de confrontar o fato de que está vampirizando e poderá destruir essa mulher, terminando por contemplar a destruição do seu sonho (a saga do ‘Chefão’). Todo Coppola cabe em ‘Velha Juventude’ e o filme sobre a linguagem e o tempo trafega entre gêneros – é uma aventura de guerra antinazista, uma investigação científica, uma história de amor e uma discussão filosófica. Não é coisa para absorver numa só visão. Ainda estou decantando, como se diz. Daqui a pouco continuo. Estou saindo para jantar.