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Luiz Carlos Merten

14 Maio 2009 | 12h37

CANNES – Vivi hoje um momento de emoção única em minha vida. Nestes quase 20 anos que venho a Cannes nubca havia sequer cruzado com Francis Ford Coppola. Hoje procurei chegar o mais próximo dele. Coppola veio mostrar, fora de concurso, abrindo a seção Quinzena dos Realizadores, seu novo longa, ‘Tetra’, que filmou na Argentina. Habvia dito que teria de escolher entre o filme de Andrea Arnold, na competição, e o de Coppola. Vocês já sabem qual escolhi. Vou ver o de Andrea amanhã, nas Séances du Lendemain, justamente para permitir que a gente recupere filmes já exibidos. Fiquei mais de uma hora na fila para ver ‘Tetro’. Coppola veio pela primeira vez ao festival em 1967, com ‘Agora Você É Um Homem’. Lá se vão 42 anos… Depois disso ele ganhou a Palma com ‘A Conversação’ e bisou o prêmio com ‘Apocalypse Now’. Coppola, claro não precisa de apresentação, mas vocês sabiam que ‘Tetro’ é apenas o terceiro filme, em toda a carreirea dele, cuja história e roteiro são criações exclusivas do grande diretor? Somando-se a isso o fato de que Coppola também produz e dirige, é um de seus projetos msais pessoais. Essa história de dois irmãos foi escrita para Matt Dillon, mas quem terminou interpretando o papel foi Vincent Gallo. Coppola também queria Javier Bardem, no papel do crítico, mas no final, quando o ator desistiu, ele trocou o sexo para poder ter Carmem Maura no papel (e agora acha que foi melhor). Dois irmãos, e um tem fixação no mais velho, como em ‘Rumble Fish’, O Selvagem da Motocicleta, que também foi filmado em preto e branco, com algum detalhe colorido (aqui, são os flash-backs). Alden Enrenreich faz o garoto que irrompe vestido de marinheiro na vida desse irmão mítico cuja trilha persegue até a Argentina. Coppola rodou em Buenos Aires e na Patagônia. Ele explicou que precisava parceiros para o projeto pequeno (que queria bancar por conta própria). Também precisava de uma cidade, um país, com forte tradição literária (e teatral). Buenos Aires e a Argentina forneceram-lhe ambos e a herança cultural italiana ainda é forte no Prata… Dois irmãos numa família dominada por um patriarca, um músico, autoritário. Ecos de ‘O Poderoso Chefão’? Com certeza… O pai patrão é músico, um maestro, como o pai de Coppola. Vincent Gallo e Alden Ehrenreich sofrem acidentes de carro e o filho de Coppola morreu num acidente. Apesar disso, ele diz que nada é autobiográfico – tudo é verdadeiro. Gostei muito e emocionei muito com ‘Tetro’. O filme é (muito) melhor do que ‘Juventude sem Juventude’. Mas também havia, recohnheço, o fascínio de estar diante do mito. Não tenho vergonha de dizer que chorei. Fazer o quê? As lágrimas me vieram espontâneas, rolaram incontroláveis diante do filme e, depois, quando vi Coppola, em carne e osso, ali pertinho. Não entro em mais detalhes porque não quero furar minha matéria amanhã no ‘Caderno 2’. Mas valeu a pena ficar mais de uma hora naquela fila. Este dia asinda vai ficar como uma das minhas grandes emoções em Cannes. Outras me aguardam, espero. ‘Tetro’ já tem distribuição no País? O que nossos independentes estão fazendo que ainda não compraram o Coppola? Outra espanhola, Maribel Verdu, também está no filme. Lembro-me quando jantei com ela em Gramado, cortesia da PlayArte, que levou a estrela e permitiu que eu me sentasse do lado dela. Meu defeito físico não me impede que, há mais de 60 anos, eu corte a carne que como. Maribel ficou tão aflita que me pediu que a deixasse ‘manejar’ a faca. Passaram-se quantos anos? Dez ou mais? Ela está mais madura e ainda mais bela. Mais uma emoção para creditar ao Coppola de ‘Tetro’