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‘Copie Conforme’

Luiz Carlos Merten

17 Maio 2010 | 20h29

CANNES -Não havia gostado muito de ‘Sirin’, o último Kiarostami exibido no Brasil, mas me convenci hoje de que, sem aquele fiulme, ele talvez não tivesse feito ‘Copie Conforme’ e seria uma perda inenarrável. Gostei demais de ‘Copíe Conforme’ e confesspo que fiquei chocado quando, no final da sessão para a imprensa, se ouviram algumas vaias. Mas que animal terá vaiado um trabalho tão belo? Kiarostami já fez filmes discutindo a linguagem, a política. Deu seu testemunho sobre a sociedade iraniana em filmes que se tornaram clássicos, como ‘Onde Fica a Casa do Meu Amigo’ e ‘O Gosto da Cereja’, que ganhou a Palma de Ouro. Mas Kiarostami nunca fez um filme como ‘Copie Conforme’. Começa como uma discussão sobre a cópia e o original, a partir de um livro que William Shimell está lançando na Itália. O cara não é ator. É tenor (alô-alô, João Luiz Sampaio). Juliette Binoche faz uma francesa que tem uma galeria de arte na Toscana. Seu interesse por Simmell parece ligado ao tema do livro dele, mas, logo no princípio, o filho de Juliette fala, um tanto ambiguamente, na fascinação da mãe pelo estrangeiro, o que provoca irritação por parte dela. O filme começa como uma conversa entre Simmell e Juliette, no carro dela. Você já essa maneira de filmar personagens em movimento em carros, em outro filme de Kiarostami (‘Dez’). A conversa começa sobre arte, a cópias e o original, e de repente ambos estão discutindo outras coisas – casamento, a relação entre homem e mulher. Sem nenhuma espécie de preconceito, não creio que a conversa tenha muito a ver com outros tipos de relações, entre dois homens, um par gay, por exemplo. Mas isso não é reducionismo. Sei que o filme me apaixonou. Achei-o muito bem escrito e filmado, na Toscana, que é um dos lugares mais deslumbrantes do mundo. Conheço um pouco da Itália, mas curiosamente não as duas regiões que mais me apaixonam, a Sicília e a Toscana. Tenho de me dar esse presente e percorrer as estradas e as pequenas cidades de ‘Copie Conforme’. Juliette Binoche, todo mundo conhece. Sua beleza, a extensão de seu talento, a intendsidade que ela põe nos papeis, Mas o tenor inglês… William Shimell é carismático. Forma umas belas dupla com Juliette e o desfecho do filme – é prematuro escrever sobre isso, mas tive a impressão de que Kiarostami põe diálogos nos silêncios de Michelangelo antonioni e substitui a bárbara Itália meridional pela Toscana neste filme que nãol deixa de ser o seu, ou a sua ‘A Aventura’. Estou em êxtase com ‘Copie Conforme’. Escrevi, na edição de amanhã (terça) do ‘Caderno 2’ que o filme de Iñárritu, ‘Biutiful’, era fortemente ‘palmarizável’, mas o de Kiarostami… Ao barroquismo de ‘Biutiful’, ‘Copie Conforme’ contrapõe o minimalismo de sua concepção (e execução). E o filme é complexo, profundo. Versa sobre o quê, vocês poderão perguntar. É sobre tudo, e mais. Em nenhum momento ousaria dizer que é é tudo, ou nada.