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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2008 | 20h03

Pode parecer irresponsabilidade e talvez seja – fazer o quê? Mas simplesmente não me lembrei de ‘O Segredo do Grão’ na minha lista de melhores do ‘Caderno 2’, logo eu que, desde que assisti ao filme no Encontro do Cinema Francês, em janeiro deste ano, em Paris – e vi o diretor receber o prêmio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros na França -, me apaixonei pela obra de Abdelatif Kechiche. Ainda bem que tenho o blog para corrigir essa injustiça – que fiz com o filme, com seu autor e comigo. Mas agora quero dizer uma coisa. Estava zapeando, como faço sempre que estou em casa, e caí nas imagens e sons de ‘O Baile’, um Ettore Scola de… Quando? 1983, por aí, logo depois de ‘Casanova e a Revolução’. Já disse aqui que o Scola do meu coração é ‘A Viagem do Capitão Tornado’, mas houve um período, entre meados dos anos 70 e o limiar dos 90 em que ele produziu coisas maravilhosas e uma delas foi, com certeza, ‘O Baile’. Concentrar a história de um país – a França -, dos anos 30 aos 80, como fez o Scola, num salão de danças, usando apenas a música e o corpo dos atores/dançarinos, é uma coisa espetacular. Essa maneira de trabalhar o tempo e o espaço, dilatando o primeiro num só décor, tavez tenha sido a maior contribuição do ex-roteirista de Dino Risi, mas o próprio Scola nunca mais foi tão feliz ao repetir a idéia em ‘A Família’, ‘O Jantar’ e ‘Splendor’. Ninguém diz uma palavra em ‘O Baile’ e nem precisa – sabemos tudo sobre aquelas figuras só pela maneira como elas se olham, se tocam, dançam. Os cinco minutos, quando entra aquele solo de clarinete e as pessoas começam a ir embora é sublime. Tem aquela mulher que pegou no sono, o garçon a chama para dizer que acabou. Ela se levanta pronta para dançar, achando que é um convite e se lê toda a sua decepção somente na expressão do rosto, como ela fica envergonhada. É incrível como certos filmes ficam com a gente. ‘O Baile’ é um deles. Amanhã, vou achar de novo que ‘Capitão Tornado’ é a obra-prima de Scola, mas hoje, agora…? É ‘O Baile’. Por que misturei ‘O Segredo do Grão’ com ‘O Baile’? Mistério… Mas taí, não me lembrava que o filme de Scola é uma co-produção franco-argelina. Pode ter sido por essa presença/influência do Magreb.