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Luiz Carlos Merten

02 Abril 2008 | 08h44

Ai-ai. Brasil, ame-o ou deixe-o. Cada vez que ouço este tipo de discussão me lembro do Kubrick, citando o Dr. Samuel Johnson em ‘Glória Feita de Sangue’ – o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Assunto encerrado, quero dizer que ontem cheguei em casa, não tinha nada para ler – ficção – e terminei descobrindo, ou redescobrindo, os livros que comprei na Fnac de Barcelona, nas férias. Um deles, o que comecei a ler, chama-se ‘Conversaciones con Billy Wilder’. O autor é Cameron Crowe, que segue o padrão de François Truffaut em ‘Le Cinéma selon Alfred Hitchcock’, que no Brasil foi lançado como ‘Hitchcock-Truffautr’ (pela Brasiliense e agora relançado, se não me engano, pela Companhia das Letras). Crowe, o talentoso diretor de ‘Quase Famosos’ – pena que depois ele tenha feito ‘Vanilla Sky’, com Tom Cruise e Penelope Cruz -, conta como tudo começou. Ex-jornalista, repórter – ‘Rolling Stones’, a revista -, ele tentou uma aproximação com Wilder. Marcou horário, foi procurá-lo em seu bangalô na Paramount, onde o mestre, aos 90 anos, continuava dando expediente, embora há mais de 20 – desde ‘Amigos, Amigos, Negócios à Parte’ – estivesse sem filmar. Eles não bateram, trombaram. Mesmo assim, Cameron Crowe convidou Wilder para um pequeno papel em ‘Jerry Maguire’, que aqui se chamou ‘A Grande Virada’. Wilder, mesmo dizendo que não era ator, topou. Próximo à filmagem, Crowe tentou contactá-lo e o Wilder lhe meteu os cachorros, dizendo que não ia filmar, coisa nenhuma. Foram os dois, em embaixada, tentar convencê-lo – o diretor e o astro/produtor Cruise. Wilder permaneceu irredutível e, na despedida, disse que tinha imenso prazer em conhecer Cruise. Ele simplesmente ignorou Crowe. Quando o filme estourou, Crowe foi convidado a fazer um diário de filmagem, acho que na ‘Rolling Stones’ mesmo. Ele contou o episódio e aí não me lembro mais que amiga de Wilder sugeriu que Crowe escrevesse um livro de entrevista nos moldes do de Truffaut. Crowe disse que não ia dar, porque Wilder não simpatizara com ele, mas a pessoa insistiu, Wilder, surpreendentemente (para o diretor/entrevistador), topou e durante quase um ano se encontraram para discutir a vida e a carreira do grande cineasta. Não comecei a ler o livro linearmente. Dei uma folheada e encontrei um capítulo que fala de jornalistas e de Pauline Kael. Wilder discute porque existem tantos jornalistas em seu cinema e fala da famosa crítica do ‘The New York Times’, que não fez outra coisa senão lhe dar pauladas, só uma ou outra vez cometendo algum leve elogio. Achei muito interessante. Wilder – Wilder, uma rara unanimidade! – disse que nem sempre esteve de acordo com as apreciações desfavoráveis da crítica a seu trabalho, mas diz que ela nunca foi injusta e mais de uma vez Pauline, e só ela, teve a perspicácia de captar os pontos fracos de seus filmes. Que outro diretor diria isso? (Acho que Otto Preminger. Nos anos 60 havia um prêmio de crítica nos EUA. Judith Christ, acho que era o nome, ganhou por uma crítica feroz de ‘O Incerto amanhã’/Hurry Sundown. Preminger, galantemente, lhe enviou flores, cumprimentando-a pelo sucesso profissional naquele dia tão importante.) Li o capítulo em questão do livro de Cameron Crowe deliciado, porque Wilder era um grande contador de ‘causos’ (como se diz no Sul). Ele conta que, na saída da primeira sessão de ‘Crepúsculo dos Deuses’, deixava a sala quando encontrou, ao pé da escada, cercado por um coro, Louis B. Mayer, o homem que controlava o leão da Metro. E o Mayer bradava – ‘Quem é este Billy Wilder que cospe no prato em que comeu?’ (o filme é demolidor sobre os bastidores de Hollywood). A resposta do cineasta – ‘Eu sou Billy Wilder e o senhor vá à merda’. Se a história for verdadeira, e não há por que duvidar, aquilo foi um marco. Mandar Louis B. Mayer à merda em 1950 podia ser (ou era) suicídio, do qual Wilder sobreviveu. Sobre ‘Cleópatra’, de Joseph L. Mankiewicz, ele lembra o comentário de Jack Warner. Hollywood estava alarmada com os altos custos da produção, que poderia levar a Fox à bancarrota. (Na verdade, contemporâneo de ‘Cleópatra’, o filme de guerra ‘O Mais Longo dos Dias’ neutralizou um pouco o prejuízo, mas foi o musical ‘A Noviça Rebelde’/The Sound of Music que salvou a Fox, fecha parêntese). A frase de Warner é uma comentário sobre a extravagância das cenas de multidão, que naquela época exigiam gente e não eram produzidas no computador – ‘Se todo mundo que está no filme for vê-lo, vamos ter lucro.’ As histórias são ótimas, Wilder é maravilhoso, Cameron Crowe é ótimo entrevistador. E um livro assim não é editado no Brasil. Ai de nós, cinéfilos!

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