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Conversa de Oscar

Luiz Carlos Merten

09 Janeiro 2016 | 09h44

Pois é, e na véspera do Globo de Ouro, que será amanhã à noite. Nenhum post recente meu teve tão poucas curtições quanto o que abordou os dois grandes diretores de fotografia que morreram com poucos dias de diferença um do outro, Haskell Wexler e Vilmos Zsigmond. Fazer o quê? Escrevo sobre o que gosto, é o meu prazer, e cada um se sirva do que quiser. Meu dia ontem foi bem agitadinho. Começou com uma ida ao Hospital Santa Paula para um exame que terminei não fazendo. Depois vi o Mustang, pré-indicado para o Oscar e que será lançado no Brasil como As Cinco Graças. À tarde, fui gravar o Metrópolis, sobre Spotlight – Verdades Reveladas, e o programa vai ao ar amanhã, domingo, às 8 (da noite). Cheguei na redação do Estado às 4 (da tarde) e saí às dez. Tinha um monte de matérias – sobre o Globo de Ouro, Oito e Meio, o show do Paulo Gustavo (220 Volts). Houve até um espaço para que falasse em lançamento de DVD e, na última hora, substituí o Viagem dos Comediantes, de Theo Angelopoulos, que saiu pelo Instituto Moreira Salles, por Juventudes Roubadas, de James Kent, da Skorpio Home Video, seja lá que distribuidora for. Vi nos EUA, no ano passado, durante alguma junket, o longa que o cineasta inglês adaptou do livro, ‘a memoir’, da inglesa Vera Brittain, Testament of Youth. Achei lindo – um começo de cortar o fôlego, meio Mensageiro do Amor, de Joseph Losey. Idílio no campo – Vera e o irmão recebem o amigo dele, há um terceiro rapaz, que já é inseparável da dupla. Todos belos e o único problema desse paraíso é que Vera quer ir para Oxford e a família desconfia de suas possibilidades acadêmicas. As Sufragistas de outro ponto de vista – agora, da classe dominante. Para os pais, o futuro de Vera é o casamento. Ela se rebela, mas de cara pinta um clima com o colega do irmão. O clima desse fim de semana especial é de fim de mundo – o fim de uma era. É 1914, a guerra vai eclodir. Os rapazes irão para as trincheiras, Vera vai se formar e, quando os combates se tornam mais intensos, vira enfermeira. O filme adota o ângulo dela, seu olhar. O cinema mostrou muitas vezes o horror das trincheiras, na 1ª Grande Guerra e aqui o horror está nos hospitais militares. Testament é o Adeus às Armas mais cru. Vera Brittain queria escrever um livro sobre suas experiências na guerra e o documentarista John Grierson convenceu-a a escrever um relato de não ficção. Testament of Youth foi publicado em 1933, virou um fenômeno editorial na Inglaterra. Juventudes Roubadas, os jovens sacrificados no altar da pátria. King and Country. Impossível não se lembrar de Glória Feita de Sangue (Stanley Kubrick), Joseph Losey (King and Country) e Steven Spielberg (Cavalo de Guerra). A sueca Alicia Vikander, que fornece a voz à jovem Ingrid Bergman, lendo suas cartas e diários no documentário de Stig Bjorkman, faz a garota inglesa. Kit Harrington, de Game of Thrones, é seu apaixonado. Quando vi Testament, os jornais norte-americanos, meses atrás, já falavam de Alicia – Oscar winning performance – e do filme como dignos de prêmios da Academia. Mas Juventudes Roubadas não estourou na bilheteria e no Brasil veio diretamente para o mercado de ‘home’. Às vezes, por viagem, ou om quê, perco algum lançamento nos cinemas, mas não creio que tenha sido o caso. Gostei de escrever sobre Juventudes (no plural) e resgatar um filme que me tocou. Gostei de Cinco Graças, de Steve Jobs. Acho que contei aqui que minha amiga Leila Reis me deu a biografia dele e eu pensei com meus botões – por quê? Em princípio, não tenho o menor interesse por esses caras que mudaram o mundo e a comunicação, ficaram bilionários a partir de invenções de garagem. Jobs, aquele Mark Zuckerberg, biografado em A Rede Social, de David Fincher. Mas aí, de cara, o filme de Danny Boyle me apanhou – 1968, 2001, Uma Odisseia no Espaço, Hal-9000. Arthur C. Clarke fala do computador doméstico, desenha o futuro. Volta para a miséria humana desses caras. A insegurança básica de Jobs, rejeitado pela primeira família que o adotou. O esforço permanente para dificultar a vida dos que querem amá-lo. Psicanálise elementar, alguém dirá. Psicanálise barata – como a de Cidadão Kane, onde Charles Foster faz tudo o que faz porque, menino, foi privado de seu trenó? Rosebud. Jobs e a filha que passa o filme renegando. O final à O Poderoso Chefão, quando os dois se olham através da porta que se fecha. Tenho gostado dos filmes do Oscar – O Regresso, muito melhor (mas mais duro) que Birdman, de Alejandro González-Iñárritu, que venceu no ano passado. Gostei de Spotlight, de Thom McCarthy, sobre a unidade investigativa do The Boston Globe que levantou casos de abuso infantil por padres da Igreja Católica e fez a denúncia. Jornalistas, soldados da notícia, investem contra a Igreja, uma instituição especialmente poderosa na conservadora Boston, onde estão baseados. Adoro as entrelinhas da fala do cardeal, em seu encontro com o novo editor-chefe do jornal. “Uma comunidade floresce quando suas maiores instituições (a Igreja e a imprensa?) trabalham juntas.” Adoro a simplicidade na reação da avó carola de Rachel McAdams, quando lê a reportagem na qual a neta se empenhou. Gostei do suspense, mas não estou muito seguro de que o filme, bom como é, seja melhor que O Clube, do chileno Pablo Larraín. Preciso checar se Pablo, com quem conversei pelo telefone – estava nos EUA -, também foi pré-indicado para o Oscar. Spotlight foi o melhor filme do ano para a Associação de Críticos da América e está entre os indicados do prêmio do Sindicato dos Produtores. Nos últimos anos, quem leva o prêmio do Sindicato tem ganhado o Oscar. O Producer’s Guild esnobou Carol e nem indicou o longa de Todd Haynes, que concorre em cinco categorias como ‘drama’ no Globo de Ouro – é o maior número de indicações em 2016. Seria interessante se Spotlight e O Clube, dois olhares sobre a espinhosa questão do abuso infantil na Igreja, vencessem os Oscars de filme e filme estrangeiro. Seria até defensável, mesmo que o melhor filme do ano seja o operístico Mad Max – Estrada da Fúria, de George Miller, mas vai convencer a Academia a votar num relato de ação. Duvido…