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Cultura » Conversa ao pé da tela

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Luiz Carlos Merten

29 Junho 2007 | 12h33

Uma coisa que sempre me perguntam é se vejo todos os filmes. Como faço as estréias do Caderno 2 e os filmes na TV e lançamentos em vídeo (agora DVD), posso não ver tudo, mas tento ver o maior número possível de filmes, seja na TV ou nos cinemas. Alterno cinema de arte com espetáculos, filmes miúras e blockbusters, comédias cretinas e obras de autor. Vejo tudo. Quando dava o curso de cinema na escola Paulista Cultural, meus alunos terminaram por se acostumar, mas eles queriam analisar os grandes títulos de arte e eu colocava uns contrabandos, fazendo com que assistissem a obras tão descartáveis que não me lembro o título de nenhuma para exemplificar. Nunca levei muito a sério esse negócio de não entender as grandes obras de arte até porque acho que ninguém se preocupa em entender as pequenas, e eu aprendo muito – sobre a vida, o mundo, o cinema – com filmes ruins, aparentemente sem ambição nenhuma, mas que terminam por destilar informações preciosas, desde que a gente se proponha a ver. Acho que a questão toda do cinema está no ato de ver. Hollywood quer que a gente veja os filmes de um jeito. Há todo um cinema alternativo que tenta construir outro olhar. Se um outro olhar é possível, por que não um outro cinema? E um outro mundo? Tem um filme absolutamente cretino com Brittany Murphy, chamado A Agenda Secreta do Meu Namorado. Cretino? O filme trata da garota que descobre a agenda do namorado, com os nomes de telefones de outras mulheres. Há uma quebra de confiança e ela trabalha numa TV, o que faz com que a produtora de um programa de entrevistas com o pé nos reality shows coloque o caso na telinha, numa lavação de roupa suja medonha que termina sendo uma discussão sobre a mídia. Não me lembro de ter visto alguém discutindo A Agenda Secreta do Meu Namorado, mas o filme, uma comédia romântica de linha, tola como é, não é burro, ah isso não, e termina dizendo muito sobre a quebra de confiança nos EUA de Bush Jr. e, principalmente, sobre o papel da imprensa manipulada pelo grupo no poder. Por isso não discrimino. Mesmo que seja para discordar, vejo o maior número possível de filmes. Tem gente que gosta de filmes específicos, de autores. Eu gosto de cinema em geral. Chego ao desplante de, se estou numa fase de só ver filmes bons, de arte, ver alguma coisa bem ruim para poluir o olho, e vice-versa, se vejo muito filme ruim, recorrer aos meus DVDs de clássicos patra despoluir o olho. Não tenho uma relação sacralizada com o cinema. É arte, mas também é indústria e se eu fosse privilegiar uma coisa, ignorando a outra, estaria sendo parcial e cometendo uma idealização (se me focasse só na arte) sem pé no real (o lado industrial, de consumo). Muita tela em que vi Homem-Aranha, Piratas do Caribe ou Quarteto Fantástico, me mostrou também Kiarostami, Lars Von Trier e O Estorvo, de Ruy Guerra, que é o protótipo do filme ‘difícil’, mas bom, de que gosto, enquanto Veneno da Madrugada, do mesmo diretor, me parece uma coisa datada. Admiro o esforço de mise-en-scène, mas não consigo engolir. Vamos ao post seguinte.

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