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Luiz Carlos Merten

10 Agosto 2007 | 12h13

Israel é um país de contrastes. Não estou falando em contrastes sociais, como os do Brasil, embora eles existam. Logo na chegada, o carro que me levou ao hotel passou por um semáforo e veio um cara, eu achei que era para oferecer alguma coisa. Era um mendigo, pedindo dinheiro. No próprio Muro das Lamentações, tem uns caras que ficam ali para distribuir bençãos e cobram, engrossando principalmente com turistas incautos. Me explicaram depois que também são mendigos. Quando falo em contrastes, quero dizer outra coisa. Jerusalém é uma cidade religiosa de três culturas, mas a presença israelense (e judaica), claro, é mais forte. Lia Van Leer, da Cinemateca de Jerusalém, me contou da oposição que sofreu ao realizar sessões de cinema em pleno shabat. Em S’phat, área tradicionalmente ortodoxa, o shabat é seguido à risca. Fui de táxi e a preocupação do motorista era sair correndo da cidade, com medo de represália, se a gente estivesse de carro em pleno shabat. Isso lá no norte. Tel-Aviv, que os israleenses chamam de ‘bolha’, é uma cidade laica. Bares, restaurantes, cinemas, tudo funciona no shabat. Fui ao kibbutz Ga’ash, fundado por brasileiros. Na volta, passei pela Casa do Construtor de lá. O que tinha de gente comprando coisas para a casa não estava no gibi. Em pleno shabat! Um consumismo louco! Esses contrastes são muito fortes e estão na origem dos problemas internos de Israel, onde a oposição entre laicos e ortodoxos é muito forte. Comentei com Jotabê Medeiros que Israel está nas rota dos grandes concertos de rock e ele observiou – claro, com a dinheirama que eles têm! E o Jota acrescentou – a cena musical, eletrônica, é muito forte lá. É o lado ‘ocidental’, e por favor, entendam o que significam as aspas… O Estado israelense deve ser laico ou religioso? Quase 60 anos depois de 48, o tema ainda está em discussão. Pudera – o que significam 60 anos face a 5 mil anops de história? Os laicos se queixam de que os ortodoxos controlam a distribuição de verbas no sistema educacional, por exemplo (e logicamente favorecem os seus). Os ortodoxos são os que defendem o expansionismo de Israel, mas, ao contrário dos laicos, eles não servem no Exército nem pagam imposto (são dispensados, invocando motivos religiosos). Existem, assim, duas categorias de cidadãos israelenses e ainda diferenças entre israelenses e muçulmanos, que são discriminados por não serem judeus. Ou seja, há um caldeirão interno e outro externo. Poderia me estender sobre esses contrastes. Israel é um dos lugares mais quentes da Terra. Em Tel-Aviv, as pessoas vestem-se para aquele calorão e criticam os ortodoxos, dizendo que o tipo de roupa que usam foi criado por antepassados poloneses, em outro contexto, em outro clima, e isso não tem nada a ver com a Torá. A própria questão sexual é complexa. Vi prostituição feminina e masculina e muitos pares de gays e lésbicas (mais lésbicas para falar a verdade – de mãos dadas, trocando beijinhos). Conto tudo isso porque foi o que vi. Não para denegrir, o que seria absurdo, mas para mostrar como nada é simples, até num Estado onde o elemento religioso é onipresente. De novo vou ter de parar. Tenho matérias para fazer!