Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Contraplongê

Cultura

Luiz Carlos Merten

01 Fevereiro 2007 | 10h18

No comentário dela, a Cláudia perguntou o que era contraplongé. Confesso que, ao acrescentar o post, cheguei a pensar nisso, mas achei que poderia parecer didático demais, se fosse explicar. Faço com prazer. Plongé e contraplongé são dois recursos de que dispõem os diretores na forma de posicionar a câmera, ao filmar. Todo plano, do mais próximo ao mais distante,é sempre definido pela distância da câmera em relação ao que o diretor quer mostrar, seja pessoa, ambiente ou objeto. A seleção dos planos (e a montagem) terminam por definir o que o diretor quer dizer. Quando a câmera é colocada no alto, olhando de lá os personagens e seus ambientes, diz-se que é um plongé, nome francês que se pode aportuguesar para plongê. Hitchcock usava muito o recurso. Em Intriga Internacional, quando Cary Grant, como Roger Thornhill, sai correndo do prédio das Nações Unidas, onde acaba de ser acusado de assassinato, a câmera pega ele lá do alto, reduzido a dimensõres liliputianas. Hitchcock queria mostrar o esmagamento do indivíduo no jogo da espionagem (e das potências). Em Psicose, a câmera também vai para o alto, mas não tão alto, quando o detetive Arbogast (Martin Balsam) sobe a escadaria da casa, em busca da senhora Bates e a porta se abre para que saia aquele vulto para assassiná-lo. O objetivo aí era diferente. Hitchcock não podia quebrar a continuidade da cena, mas não queria revelar a verdadeira identidade da presumível mãe de Norman, reservada para o desfecho. Isso é o plongê. O contraplongê é exatamente o inverso. Em vez de a câmera se posicionar no alto, ela olha a cena de baixo. Quando colocava sua câmera no nível de um observador colocado no tapete de palha de arroz, o tatame, Yasujiro Ozu, o grande diretor japonês, não deixava de estar filmando em contraplongê, mas ele não queria criar uma deformação da imagem e sim, lançar o espectador no centro de um universo familiar em transformação, como se a gente fosse íntimo daquielas pessoas e seus problemas. O contraplongê costuma ser usado para outro referencial. No final de El Cid, de Anthony Mann, para mim o mais belo épico da história do cinema, o herói (Charlton Heston) morre, mas tem de liderar a última carga, sob pena de a sua causa ficar perdida. Ele é amarrado ao cavalo para essa última cavalgada. Mann cria uma expectativa nervosa na sua construção de planos até que se abre aquela porta e sai o Cid, filmado de baixo, o que lhe dá aquela dimensão de herói maior que a vida (claro, pois o cara está morto). O Cid deixa ali de ser homem para se sacralizar como mito. É dessa dimensão que estava falando. Em cima da imagem, Mann coloca a música de órgão do Miklos Rosza. Gente – vou parar. Fico todo arripiado. Vou terminar chorando aqui diante do computador. O tempo passa, sou um velho (60 anos!), mas, só de lembrar, a emoção é a mesma de quando tinha tinha, sei lá, 17-18 anos e vi filme pela primeira vez, em Porto Alegre.