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Luiz Carlos Merten

23 Fevereiro 2007 | 13h51

Havia acabado de confirmar o post de Borat quando pensei uma coisa. Sou contraditório, como todo mundo. Ainda bem! Me divirto com o horror de Borat, mas tem um outro Merten que ama, por exemplo, Carta de Uma Desconhecida, do Max Ophuls. É um dos cults da minha vida. Adoro os melodramas de Douglas Sirk e acho, como Godard e Fassbinder, que ele conseguiu traçar um retrato crítico mais forte da sociedade americana dos anos 50 que a maioria dos filmes considerados ‘ousados’ na época. Acho coisa de gênio a cena de All that Heaven Allows (Tudo o Que Céu Permite) em que os filhos presenteiam a mãe viúva com a TV e a Jane Wyman olha para aquele aparelho como se sua vida, dali por diante, devesse ser a de quem vê o mundo pela telinha. A TV como substituta do afeto, como máquina de sonhos, como companheira dos solitários (como um bicho doméstico). Sirk teve aquela intuição em 1956, antecipando o que Marshall McLuhan iria teorizar dez anos mais tarde. Da mesma forma, sou doido por Max Ophuls e estou em boa companhia. Kubrick também o adorava. O cineasta da valsa vienense era um romântico que, antes de Truffaut, já desconfiava do próprio romantismo. A Carta é um dos filmes mais delicados que já vi. Tudo ali parece criar um rendilhado de emoções, mas a história é dura como pedra. O pianista mulherengo e covarde vai fugir mais uma vez (depois de aprontar das suas) quando recebe essa carta que o confronta com sua pequenez. Quem escreve é a mulher que o amou mais que tudo na vida e ele nunca teve consciência disso, nem sabia da existência dela. Tinha sido só uma aventura de uma noite. Joan Fontaine é a intérprete do papel (e ainda ontem estava lendo o que George Cukor diz sobre ela, no livro sobre o grande diretor que comprei na Librairie Reflets Médicis, em Paris, de retorno ao Brasil, após o Festival de Berlim). Louis Jordan é o canalha que tem a chance de se redimir. Existem momentos assim, na arte como na vida. Quantas pessoas você não conhece, de verdade, pelas quais não dá nada e um dia surpreendem com um gesto de grandeza? O contrário também é verdadeiro, mas eu tenho essa minha paixão por Ford. Acredito, quero acreditar, na grandeza dos derrotados. Viajei demais. Talvez o que esteja querendo dizer é que não existem regras, ou que não devem existir camisas de força. Grosseria e vulgaridade podem não ser agradáveis, mas fazem parte do nosso imaginário, da nossa vida, queiramos ou não. E eu gosto de ter a abertura de ver Borat sem preconceito, do mesmo jeito que A Carta, embora saiba, no limite, que, se tiver de escolher, vou ficar com Ophuls.