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Luiz Carlos Merten

25 Junho 2011 | 19h07

Vai ser um post longo, daqueles que misturam tudo. Vamos ver se chego a bom termo. Pode ser que o filme tenha interferido – estou falando de ‘A Condessa Descalça’, claro. Tenho a maior admiraçãio por Joseph L. Mankiewicz e seu clássico sobre o mito da Cinderela. Puta filme bem escrito. O esplendor da mise-en-scène de Mankiewicz. Ela passa, como os críticos não se cansam de dizer, pelo dinamismo dos diálogos. Maria Vargas, a esplendorosa Ava Gardner, vira estrela de Hollywood como Maria d’Amata. Ela tem tudo o que uma mulher pode desejar. Fama, dinheiro. Tudo? Maria, objeto de desejo dos homerns, sonha com um príncipe encantado. Encontra o conde Torlato Favrini. Ele a idealiza como mulher. Parece perfeito, mas como diz Henry Daws, o diretor interpretado por Humphrey Bogart, a realidade estraga a ficcção. O conde é impotente, como consequência de um ferimento de guerra. Maria descobre isso na noite de núpcias, ela que não se dava para ninguém, guardando-se para o seu príncipe. O conde é um personagem viscontiano. A divisa de sua família é ‘Che sera, sera’1. Ele é impotente, a irmã é estéril. É obcecado pela ausência de descendência. A linhagem vai terminar com ele. Maria, que no fundo é ingênua, resolve lhe dar um presente. Faz um filho com outro, que quer lhe ofertar como prova de amor. A história de Cinderela vira tragédia. Grande Mankiewicz. Ele contou depois a história de outra Cinderela, Cleópatra. Ambas, Maria e Cleópatra, viram estátuas. ‘Por que as estátuas não têm olhos?’, pergunta-se a rainha do Nilo. Mankiewicz conta sua história por meio de sucessivos flash-backs que revelam como Maria é vista por seus homens. O flash-back, como recurso narrativo, propõe uma espécie de anatomia. Estar descalça, como Maria gosta, é estar morta, na mitologia indiana (dos Vedas). Você sabia que, ao longo de uma carreira marcada pela erudição – e pela sofisticação-, todos os filmes de Mankiewicz, eu disse todo, são narrados como puzzles, em flash-backs? Pode-se reinterpretar a obra, e o autor, só por isso. Saí de casa para almoçar em alto astral, embora ainda não esteja 100% (a tosse voltou). A realidade invadiu minha ficção, bem como Bogart dizia. Está em todos os jornais de hoje. Um turista francês passeava com a amiga no estribo do bondinho da Lapa, no Rio. Foi tirar uma foto da garota. Desequilibrou-se, caiu de uma altura de 15 metros. Enquanto agonizava, em vez de socorro, o que encontrou foram ladrões. Roubaram seu passaporte, a câmera fotográfica e dinheiro. É cruel demais, sórdido demais. Essa história se somou a outra que me contou um desses motoristas de táxi que vivo pegando no centro. Um colega dele pegou uma garota. Simpática, comunicativa. Ela pediu que ele parasse em frente a um prédio, numa daquelas ruinhas da Consolação, o lado do centro. Encostou um carro. Renderam o cara, com a arma na cabeça dele. Levaram tudo. A garota era cúmplice, a isca. Mudou de carro, na maior, aparentemente sem remorso e se foi. Afinal, também ela estava ‘trabalhando’. O que tudo isso prova? A arte me faz um bem danado. Lembro-me sempre da carta de Van Gogh ao irmão Theo, dizendo que a sua pintura – intensa, dilacerada, torturada – deveria ser um consolo para as pessoas, pelo menos é o que ele gostaria. Muitos filmes talvez nem sejam grandes obras de arte, mas nos oferecem esse consolo. Havia visto ‘Minhas Tardes com Margueritte’ em DVD, em Paris, como preparativo para entrevistar o diretor Jean Becker, após Cannes. Adoro aquele velhinho. Adoro, em todas as entrevistas que fiz com ele, quando me conta história de Jacques, seu pai. Depardieu faz um sujeito que passsou pela vida apanhando. A mãe, os professores, os colegas, todos abusavam dele – antes que houvesse a palavra ‘bullyng’. Ele era o bronco, o retardado, com dificuldade para ler e escrever. Criou-se iletrado e encontra essa velhinha que lê para ele e lhe descortina um mundo. Ele retribui, porque é basicamente bom. Isso é só ficção? Na realidade, o bronco iria roubar a velhinha, bater nela? Depardioeu reencontra Deneuve em ‘Potiche, Esposa Troféu’, de François Ozon, mais de 30 anos depois de ‘O Último Metrô’, de François Truffaut, de 1980 – tenhop quase certeza de que me enganei e coloquei, na matéria do ‘Caderno 2’, que era ‘A Mulher do Lado’, de 1981, Depardieu e Fanny Ardant. Dei-me conta quando falava na rádio e fui citar o filme. Em breve, Depardieu estyará com um terceiro filme nas telas, ‘Mamouth’, com outro bronco, um ppouco parecido (mas diferente) do amigo de Margueritte. Depardieu engordou, perdeu a forma, mas quem liga? Eu não. Há uma delicadeza nos seus personagens. Me encanta quando, em ‘Minhas Tardes’, ele sai de cima da namorada motorista de ônibus e diz que gosta de estar dentro dela, que é ‘macio’. Conscientemente, ou não, Depardieu, que era um belo homem no começo de sua carreira, virou o Michel Simon de sua geração. Com a diferença de que o jovem Simon já era assim nos anos 1930, com Jean Renoir (‘La Chienne’ e ‘Boudu Salvo das Águas’), e Depardieu ficou assim. Voltei para casa, para o blog, para o conforto da ‘arte’. Mas a realidade não me assusta. Hoje à tarde, passei pela galeria do rock e artistas populares se apresentavam ali. Parei para ver, havia até uma equipe do SBT colhendo imagens, não sei se relacionadas à Parada do Orgulho Gay de amanhã. Um garoto começou a dançar, requebrando-se, ninguém mexeu com ele. O artista que imitava Michael Jackson – hoje se completam dois anos de sua morte – não era muito bom. Já vi imitações melhores do ‘caminhante da Lua’. Mas o público foi generoso, aplaudiu. Lembrei-me da entrevista com Josh Hamilton, no Rio, a propósito de ‘Transformers 3’. Ele cointou que sua mulher, Fergie, nascewu para ser uma estrela. Ela canta e dança dentro de casa, faz dele um espectador privilegiado. Muita gente precisa de plateia – todo mundo? Contra a barbárie, a arte pode ser uma arma (um instrumento?). É o meu consolo.

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