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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2009 | 14h19

Estava devendo o post que alguns de vocês me pediram sobre ‘Conspiração do Silêncio’, depois que falei no livro ‘Histoires d’Un Filmaker’, de Emmanuel Laborie, sobre John Sturges, que comprei em Paris. O que diz o próprio Sturges de ‘Bad Day at Black Rock’, com Spencer Tracy, Robert Ryan, Anne Francis, Dean Jagger, Walter Brennan, Ernest Borgnine e Lee Marvin? O que diz o autor do livro, Laborie? Começo por ele. Laborie observa que se trata de um dos raros filmes do diretor que não obedece aos códigos de nenhum gênero, misturando vários (western, thriller, filme de guerra) e sendo, talvez por isso, considerado por muitos críticos como a obra-prima de Sturges. Na França, ‘Conspiração do Silêncio’ chamou-se ‘Un Homme Est Passé’, Um Homem Passou, e esse título refere-se tanto a Spencer Tracy, que chega a pequena cidade em busca de um certo Komako, que todos os habitantes parecem se unir para tentar impedi-lo de encontrar, quanto ao próprio ‘desaparecido’. O filme de 1955 trata da maioria silenciosa e o linchamento de Komako tem a ver com o linchamento moral a que o macarthismo vinha submetendo tantos intelectuais, suspeitos de atividades antinorte-americanas. O próprio Sturges tinha consciência de que ‘Conspiração do Silêncio’ era um de seus melhores filmes. Para ele, dois fatores foram fundamentais para o resultado – 1) o produtor Dore Schary, um dos mais audaciosos e criativos de Hollywood no pós-guerra, sempre interessado em elevar o nível de maturidade do cinemão; e 2) o próprio roteiro, de Millard Kaufman, que o diretor considerava excepcionalmente bem escrito. Sturges conta uma história instrutiva. Ele adorava o script, mas implicava com uma fala, muito intelectualizada, que Kaufman colocou na boca do bronco Robert Ryan. O personagem é um brucutu que o cineasta achava que não teria condições de articular um pensamento complicado daqueles, mas Kaufman o convenceu de que a idéia era aquela – a frase não devia ser de Ryan, mas de algum pregador ou político que propagava o ódio contra o ‘estrangeiro’ e que ele, como papagaio, terminava por repetir. Faz tempo que não vejo ‘Conspiração do Silêncio’, mas depois de ler o livro convenci-me de que deve continuar atual, com seu olhar sobre a realidade de uma ‘América’ rural que, como dizia Sturges – ele morreu em 1992, pouco mais de um ano após ser entrevistado por Laborie -, não faz os EUA crescerem. Essas mesmas populações interioranas, ignorantes e preconceituosas, sustentaram o ex-presidente George W. Bush para seu segundo mandato (que já foi tarde) e agora são outro problema para Obama administrar, com a crise e a guerra do Iraque. Sturges também analisa duas cenas – a chegada de Tracy à cidade, pelo trem, quando ele já provoca uma reação imediata; e a maneira como se livra de Ernest Borgnine, no bar. Nessa primeira cena, o espectador ainda não sabe, mas a união do grupo na animosidade, ou desconfiança, contra Tracy, deve-se ao fato de que são todos culpados no linchamento do japonês e ficam em guarda contra o novo homem que passa. Um, Komako, eles destruíram, o outro vão ter de engolir. A reação no bar é física e é perfeitamente justificada, um pouco porque Borgnine é um daqueles tipos que vivem de bravatas e também porque Tracy, como ex-militar, mesmo tendo perdido um braço na guerra, devia ser preparado para golpes certeiros como o que aplica. Sturges conta que Tracy tinha dúvidas quanto à cena, mas, uma vez persuadido pelo diretor, interpretou-a com tal convicção que seria absurdo desconfiar de que não fosse verdadeira. Ele conta que Tracy, que não era propriamente um amigo, o respeitava profissionalmente e foi quem o indicou para fazer este filme e, depois, para substituir Fred Zinnemann, afastado da produção de ‘O Velho e o Mar’, adaptado do romance de Ernest Hemingway. Sturges também faz uma análise muito precisa desta América profunda (e reacionária). ‘São cidadezinhas que o tempo não influenciou e que se impregnaram de tudo o que há de mais nocivo na cultura norte-americana. Cidadezinhas que não oferecem saneamento básico e que não têm água decente, mas nas quais se consomem Coca-Cola e McDonalds, e nas quais populações inteiras não perdem o ‘Cosby Show’ no sábado à noite, embora detestem os negros e estejam convencidas de que foi Sylvester Stallone, como Rambo, quem ganhou a guerra do Vietnã.’ Sturges trabalhou uma segunda vez com Millard Kaufman, mas ‘Quando Explodem as Paixões’, ao contrário de ‘Conspiração’, não apenas não é bom como é um de seus piores filmes. O diretor credita o fracasso à história de amor tão inútil quanto débil. Em ‘A Águia Pousou’, o roteirista Tom Mankiewicz criou uma trama secundária de romance entre Donald Sutherland e Jenny Agutter que funcionava muito bem. O filme contava a história da tentativa fracassada de assassinato de Churchill por um comando nazista. Sendo o desfecho conhecido, o diretor precisava de subtramas fortes para manter o público interessado. Millard Kaufman havia escrito um roteiro ótimo, centrado nos embates masculinos, para ‘Quando Explodem as Paixões’, mas a empresa produtora Metro tinha Gina Lollobrigida sob contrato, sem saber o que fazer com a estrela italiana. A Metro exigiu que Sturges criasse uma história de amor entre Sinatra e Gina. Sem outra alternativa, Kaufman e ele viram o romance desnecessário afundar o filme, que poderia ter sido bem mais interessante. Adorei as histórias de bastidores de John Sturges. Espero que elas me estimulem a um olhar mais apropriado (e generoso) quando tiver de falar de novo do cineasta, um dos meus mestres de ação.

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