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Consciência negra

Luiz Carlos Merten

22 Novembro 2011 | 08h53

Richard Fleischer sempre se admirou que sua chance de ascender à produção A tenha vindo por meio de Walt Disney, quando o contratou para adaptar Jules Verne, ‘20 Mil Léguas Submarinas’. Seu pai, Max Fleischer, criador de Betty Boop, havia sido o grande rival de Disney nos primórdios da animação. De uma maneira um tanto cínica, pode-se dizer que Disney talvez quisesse ter, como empregado, o filho do concorrente. Richard já vinha dirigindo desde 1947, ou 48. Fez um filme que nunca vi, ‘O Estrangulador Misterioso’, dividindo a direção com Anthony Mann. O sucesso de ‘20 Mil Léguas’, em 1954, consolidou sua posição em Hollywood. Ele foi contratado pela Fox e, pelos anos e décadas seguintes, virou uma espécie de artesão preferencial do estúdio, realizando filmes dos mais variados gêneros, quase sempre com a maior competência. Mas ‘artesão’? O artesão é o funcionário da arte, dizia Jean-Luc Godard. Fleischer foi um autor, subestimado, na maioria das vezes. Poucos autores filmaram, como ele, os abismos da mente, os labirintos da alma humana. O torturado Capitão Nemo de ‘20 Mil Léguas’ foi seguido de uma série de assassinos em potencial (ou de fato), de homens cujas consciências não os impediam de cometer atrocidades. Leopold e Loeb em ‘Estranha Compulsão’, ‘Vikings, os Conquistadores’, ‘Barrabás’, ‘O Homem Que Odiava as Mulheres’, ‘O Estrangulador de Rillington Place’, ‘Os Novos Centuriões’ – e ‘Mandingo’. O filme é uma adaptação do romasnce de Kyle Onstott, no ciclo de Falconhurst. Perry King faz o jovem Hammond, o sinhozinho de Falconhurst. Parece um homem ferido saido de um filme de Nicholas Ray. Manco, como o Robert Taylor de ‘A Bela do Bas Fond’, ele é carinhoso com as escravas negras da plantação, mas não sabe lidar com a voluntariosa mulher, ao descobrir que não é virgem. Desconfia de que é incestuosa, mas a verdade lhe vem tarde demais, depois que Susan George vinga-se da amante do marido e mais – dá-se ao garanhão negro, o mandingo, para aplacar o fogo que a consome. Nos antípodas de ‘…E o Vento Levou’, Fleischer cria um mundo decadente. A mansão, Falconhurst, está em pedaços. e todo o mundo é ignorante. James Mason, ex-Capitão Nemo, agora Master Hammond, acredita que o reumatismo lhe sairá pelos pés, se apertar com eles, com força, a barriga do negrinho esperto, que tenta convencer a seu senhor que já está sofrendo por causa da doença. O desfecho – Susan engravida, dá à luz um bebê negro, que é assassinado – é brutal. Perry King transforma-se num monstro. O mundo de Falconhurst esboroa-se em ruínas. No livro com a entrevista que deu a Stéphane Bourgoin, Fleischer conta que sua versão de ‘Mandingo’ tinha quase quatro horas, reduzidas a pouco mais de duas. Ele dizia que achava ter conseguido equilibrar os elementos melodramáticos com a dureza da análise social – os castigos corporais, a franqueza do tráfico sexual entre a casa grande e a senzala. Hammond pai diz ao filho que as mulheres brancas aceitam e até preferem que os maridos descarreguem sua energia sexual nas escravas, mas Hammond filho erra duas vezes – sua mulher é ardente, gosta da coisa, e não tolera que ele manifeste amor por sua ‘negra’. Muita gente acha o filme racista e sensacionalista. O fato de ‘Mandingo’ mostrar um universo racista não significa que seu diretor o seja. Nunca saberemos se os desequilíbrios do filme se devem só à remontagem. É pegar ou largar. O ‘Mandingo’ ideal só existia na cabeça de seu autor. Fleischer filma um levante de afro-descendentes. Inspirados pelo lendário Nat Turner, eles pilham e matam. Terá Norman Jewison desistido de adaptar o livro de William Styron, ‘As Confissões de Nat Turner’, por causa de ’Mandingo’, ou Fleischer terá carregado nas tintas justamente porque o outro desistiu? E por que Jewison, que já havia encarado o racismo – em ‘No Calor da Noite’ -, teria desistido? Pela alta voltagem da rebelião dos escravos, quando ainda recente a lembrança dos quebra-quebras por direitos civis em Cleveland e Detroit, nos anos 1960? Quando subia a Consolação de táxi, para assistir a ‘Mandingo’ no CineSesc, a passeata da consciência negra descia a avenida, pela outra pista. Havia, ou houve, algo de simbólico na minha cabeça. Eles desciam para o Centrão, eu subia para os Jardins, onde o público reagiu mal ao filme, conforme relatei num post anterior. Não posso dizer quanto gostei de ‘Mandingo’, reconhecendoos problemas que o diretor enfrentou – numa repetição das interferências do estúdio com seu Che -, mas gostei de rever o filme. Só aumentou o respeito e admiração que sempre tive por Richard Fleischer.