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Cultura » Connaissez-vous Chabrol?

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Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2010 | 11h35

Somente agora chegou às bancas da Av. Paulista – e consegui comprar – a edição de outubro de ‘Cahiers du Cinéma’. Connaissez-vous Chabrol?, Você conhece Chabrol? O cineasta, um dos artífices da nouvelle vague, havia morrido em setembro e ‘Cahiers’ lhe dedica sua capa, retraçando a trajetória do ex-crítico (que começou na revista). As análises da obra, em si, não me interessaram muito – confesso que tenho minha abordagem de Chabrol, e minha percepção do autor foi muito mais definida pelo que sobre ele escreveram Robin Wood e Michael Walker. Mas ao folhear as páginas encontrei três entrevistas que m e fascinaram. Chabrol visto por três das mulheres de sua vida – Bernadette Laffont, que foi atriz de seus primeiros filmes; Stéphane Audran, com quem foi casado e que estrela seus maiores filmes, ‘A Mulher Infiel’ e ‘O Açougueiro’, e – claro – Isabelle Huppert, com quem também fez obras decisivas (e que supriram a ausência de Stéphane). Vou voltar às entrevistas, que li na vertical. Quero até reler (a da ex-mulher, principalmente.) Stéphane vive hoje meio reclusa, tem fama de louca, mas essa mulher foi, com o ex-marido, uma atriz de recursos inesgotáveis. Aproveito para dizer que ‘Cahiers’ põe nas nuvens ‘Les Mystères de Lisbonne’, mas antes que vocês usem isso para incensar o (grande?) filme de Raúl Ruiz, a revista também elogia, e muito, obras de dois autores meio que recebidos a pedradas por críticos homofóbicos ou avessos à modernidade – Gregg Araki e Xavier Dolan. Não me lembro de ter captado o mesmo entusiasmo – por ‘Kaboom’ e ‘Amores Imaginários’ – que alguns coleguinhas experimentaram por ‘Les Mystères’. Não tenho muita paciência para ler ‘Cahiers’, mas se há uma coisa de que gosto é da veemência com que a revista defende suas escolhas e também a amplidão do arco de seus interesses. Nisso, pelo menos, estou com ‘Cahiers’ e não abro. Detesto gente que vê o cinema por um ângulo reducionista – política/linguagem – e que ajusta tudo o que vê nessa camisa de força. A própria obra de Chabrol é o avesso dessa tendência. Ele mesmo dizia que filmava não importa o quê, mas nunca não importa como. Não creio que exista melhor definição de ‘estilo’.

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