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Luiz Carlos Merten

04 Julho 2012 | 19h13

Fui rever ontem o Woody Allen, ‘Para Roma, com Amor’. Não aguento mais minhas oscilações em relação ao filme. Da primeira vez que o vi, na cabine da Paris, achei bem fraquinho, principalmente comparado a ‘Meia-Noite em Paris’ que, nessa série ‘turística’ do ator e diretor me parece, de longe, o melhor. Mas ocorreu uma coisa curiosa – comecei a contar algumas piadas de ‘Para Roma’ a amigos e colegas e quase me acabava de rir. Fui rever o filme e uma coisa que já havia percebido agora me atormentou. Quase fiquei louco tentando entender a cronologia de ‘Para Roma, com Amor’. O episódio do casal de Pordenone parece se passar em um dia, ou uma tarde. O de Roberto Benigni passa-se em vários dias e o do tenor, envolvendo o próprio Woody Allen, deve durar semanas, com todas aquelas idas e voltas (e testes, e ensaios, e montagens de óperas). Só que Allen trata tudo em montagens paralelas, criando uma temporalidade única, como se fosse tudo a mesma coisa. Seria um recurso onírico, de sonho, herdado de ‘Meia-Noite em Paris’, mas não tem nada a ver. Estou sem chão. Cada vez que penso, a coisa piora. Um filme de Woody Allen para não pensar? Pode ser – não é a frase de Roberto Benigni sobre ‘A Solidão dos Números Primos’, que ele, como alter ego de Woody, considera superior a ‘O Discurso do Rei’ (e é)?