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Confissão verdadeira

Luiz Carlos Merten

11 Junho 2010 | 10h16

Parece título de filme. Não é. ‘Confissões Verdadeiras’, no plural, é um filme de Ulu Grosbard, com Robert De Niro e Robert Duvall. Não é sobre isso que quero falar. Veio ontem uma turma da Casper Líbero para me entrevistar aqui na redação do ‘Estado’. Duas garotas e um garoto. Tinham de perfilar um crítico e me escolheram. Fizeram as perguntas de praxe, sobre como comecei, o que determina minhas escolhas etc.No final, fizeram um questionário vapt-vupt, perguntas para responder rapidamente, sem explicação, tipo qual é o filme preferido? “Rocco e Seus Irmãos’, de Luchino Visconti, claro. Até aí, tudo bem. Mas eu próprio me surpreendi quando me perguntaram qual minha cena preferida? Escrevi um livro – ‘Cinema, Entre a Realidade o Artifício’ – baseado no conceito de que a cena mais influente do cinema talvez não seja mais a da escadaria de Odessa, em ‘O Encouraçado Potemkin’, de Sergei M. Eisenstein, mas o assassinato na ducha em ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock. Aquelas 70 posições de câmera para 40 e poucos segundos de filme exerceram uma influência extraordinária não apenas sobre ‘autores’, mas sobre a linguagem em geral. Hitchcock valeu-se de técnicas de TV para aquele filme e o impacto de ‘Psicose’ pode ser avaliado na MTV, que, gostando-se ou não, é a linguagem da juventude (e do nosso tempo), com ramificações no cinema. Mas eu confesso que gosto do assassinato de Marion Crane não apenas pelo tour de force técnico e sim, pelo que há de trágico na cena. Marion está entrando no banho para se purificar, porque quer dormir e amanhã vai voltar para casa, sassumindo as consequências de seus atos. Mas não haverá segunda chance para ela, como não há para seu carrasco, Norman Bates, que inconscientemente a mata porque sabe que não há perdão para seu crime hediondo. Aquilo é de uma tristeza devastadora e eu, se tivesse pensado, talvez citasse a cena em questão, mas vapt/vupt, sem pensar, o que me veio foi outra cena. Rocco sai do quartel e encontra Nádia, que está saindo da cadeia. Passa pelo rosto do jovem Alain Delon um sentimento de surpresa. Annie Girardot e ele sentam-se no café, e falam. Ele fala da família, do paese. Ela se abre como ninguém falou com nenhum homem. Cinema falado, dois atores em estado de graça. Não existe mulher mais bela do que Nádia/Annie, naquele breve momento em que Rocco vai vislumbrar para ela aquele sentimento de que um outro mundo é possível, sim. A lembrança me veio, instintiva. Queria compartilhar essa confissão com vocês.