Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Condi Vs. Hillary

Cultura

Luiz Carlos Merten

06 Novembro 2006 | 18h51

Paulo Francis escrevia, de Nova York, o Diário da Corte, recebendo todo tipo de crítica por isso. Eu próprio achava o Francis alienado, americanófilo, o escambau, mas estar em Nova York dá uma perspectiva diferente do mundo (e não tinha como negar que o cara tinha lances de gênio). Tenho ido, profissionalmente, a Paris, a Londres e a outras capitais, mas Nova York tem um cosmopolitismo que é só da Big Apple (e que fascina). Entrei ontem à tarde na Noble and Barnes, na 5ª Avenida, e vi dois lançamentos de não ficção que me impressionaram muito e ali mesmo, só de orelha de livro, já me deram o que pensar. Um se chama Condi Vs. Hillary e tenta mostrar que o próximo embate para a presidência dos EUA será travado entre duas mulheres, a secretária de Estado de George W. Bush, Condoleeza Rice, e a mulher de Bill Clinton, Hillary Clinton. Nunca havia pensado por esse lado, mas bastou a apresentação para perceber que faz sentido e as duas mulheres podem mesmo estar sendo preparadas por seus partidos para isso. Fui comentar com o pessoal da Internacional do Estado e eles me disseram que até já saiu uma matéria sobre isso no jornal. O outro livro chama-se A Glorious Disaster e é uma biografia do candidato republicano que foi derrotado na disputa pela presidência dos EUA em 1964, Barry Goldwater. Me lembro de uma frase do Godard – como posso odiar tanto John Wayne quando ele sustenta o reacionarismo político de Goldwater e amá-lo mais ainda quando ele abre os braços para neles acolher Natalie Wood no desfecho de Rastros de Ódio? A ambigüidade que nos salva ou faz pensar. O mundo não é preto no branco, não se constrói numa bipolaridade. Há mais nuances entre os extremos do que se pensa (e, na verdade, o xiismo dos extremos é que pode ser muitas vezes perigoso). Mas o ponto do livro é o seguinte. Goldwater pode ter perdido aquela eleição, mas, historicamente, iniciou o neoconservadorismo (neo-republicanismo)que Nixon, Reagan e agora Bush filho consolidararam. Muitas das idéias que ele defendia são as que foram hoje adotadas como princípios políticos pelos quais se pautam tantos governos. Muitos de seus antigos assessores serviram depois a Reagan e formaram as equipes de Bush pai e Bush filho. Há derrotas que perduram (e são mais influentes) do que certas vitórias. Também nunca havia pensado em Goldwater sob esse ângulo. Ele era só o reacionário derrotado de 68. Mas, então, será que foi ali que tudo começou? Ingenuamente, sonhávamos com a revolução em Maio de 68, mas a via já estava sendo traçada para outra coisa. A ida a Nova York foi produtiva. Vi e li coisas que estão me fazendo pensar.