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Luiz Carlos Merten

05 Julho 2010 | 13h38

Assim como ‘O Pequeno Nicolau’ me impulsionou a boas lembranças, com frequência ocorre de eu viajar enquanto seleciono destaques para filmes na TV, especialmente na TV paga, nos canais Telecine Cult e TCM, que são as cinematecas de que os cinéfilos podem dispor em casa. Agora mesmo, uma velha cena se repetiu. O TCM mostra amanhã, às 22 horas, o ‘Quero Viver’ de Robert Wise. O filme deu a Susan Hayward o Oscar de melhor atriz de 1958, um prêmio que ela já perseguia há tempos. Pouca gente ainda fala em Susan hoje em dia, mas era uma atriz importante, a chamada ‘operária’ da interpretação. Susan era uma estrela, mas nunca se pautou pelo glamour e sim, pela excelência de suas criações em filmes de aventuras e melodramas que marcaram época. Ela era boa como heroína sofredora (como aqui), mas era melhor ainda como malvada e, em boa parte de ‘Quero Viver’, sua personagem é uma peste, num estilo meio Barbara Stanwyck. O próprio Wise, que havia montado ‘Cidadão Kane’ com Mark Robson – ambos estrearam na direção na escola de terror do produtor Val Lewton –, virou um diretor de prestígio, embora ‘Cahiers du Cinéma’, na fase de capa amarela, implicasse com ele. ‘Cahiers’ dizia que Wise não fazia jus ao nome (sábio), mas a revista, pela mesma época, hostilizava John Huston, acusando-o de não ter ‘estilo’. Era um pouco a acusação também feita a Wise, e no fundo muitos críticos deviam colocá-lo no mesmo saco de Stanley Kramer, um produtor e diretor que se valia de temas fortes – e audaciosos – para tentar lograr uma respeitabilidade que não mereceria (por suas fracas aptidões cinematográficas). Mas ou a memória me falha completamente ou ‘Quero Viver’ decola como um noir dos bons, naquele cabaré em que Gerry Mulligan e outros cobras tocam o fino do jazz e Barbara Graham começa a aprontar. O filme baseia-se numa história real. Barbara era uma prostituta que podia ser culpada de muita coisa podre, mas era inocente justamente do crime pelo qual foi condenada à morte na câmara de gás – a participação no assassinato de uma velhinha. Simon Oakland, o psiquiatra de ‘Psicose’, que explica para o espectador o caso de Norman Bates/Anthony Perkins no desfecho da obra-prima de Alfred Hitchcock, faz o jornalista cujas manchetes levam Barbara ao corredor da morte, mas até ele se convence de sua inocência e passa a lutar pela comutação da pena <CF343><CP14><CONEWVERMELHO>– em vão. A tal cena do cabaré é puro cinema ‘sério’, tal como era praticado em Hollywood, na época. Fotografia em preto e branco, clima enfumaçado e muito contraste na iluminação, câmara ágil, montagem idem, ângulos insólitos. Me lembro que, na única vez em que vi o filme, me desagradou um pouco o desfecho, com a insistência do relógio – à espera da comutação da pena, enquanto prosseguem os preparativos para a execução da sentença –, recurso um tanto fácil que Wise já utilizara em ‘Punhos de Campeão’, seu clássico de boxe, com Robert Ryan. Mas o filme tem rara força e o diretor logra conduzir o espectador numa virada. Durante meio filme, pelo menos, ficamos </CO></CP></CF>– nós, o público – contra Barbara e só depois ela nos ganha, mas quando o quadro já está definido contra. E tem o jazz, Gerry Mulligan. Quando entrevistei, recentemente, Amelita Baltar, falamos sobre Piazzolla e a reunión cumbre dele com Mulligan. É um dos meus discos preferidos, e a faixa ‘Adiós, Nonino’ me deixa desidratado, de tanto chorar. Outros diretores usaram o jazz em seus filmes – Louis Malle pediu a Miles Davis que improvisasse a trilha de ‘Ascensor para o Cadafalso’ e ‘Anatomia de Um Crime’ não seria o grande filme de Preminger que é sem Duke Ellington –, mas Wise tem o mérito de ter liberado Johnny Mandel para compor a trilha de ‘Quero Viver’ e ele, o de ter recorrido a Gerry Mulligan. Na sequência, Wise fez apelo ao Modern Jazz Quartet em ‘Homens em Fúria’, também famoso, por seu ataque ao racismo. Esses filmes se manterão? Ponho mais fé em ‘Quero Viver’, mas aí é por Susan. Numa cena do filme, alguém tenta convencê-la de que a vida é boa. A personagem está completamente f… e ela pergunta, com amargura, ‘É boa comparada a quê?’ Só aquele momento, mais até que a gritaria, vale o Oscar.

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