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Cultura » Como você sabe que nunca fui negro?

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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2010 | 13h37

Já havia falado aqui do livro de Chris Fujiwara, ‘The World and Its Double’, sobre o cinema de Otto Preminger, que comprei nos EUA (e vocês podem encomendar via Amazon). Fugiwara é autor de um livro sobre Jacques Tourneur (‘The Cinema of Nightfall’), prepara outro sobre Jerry Lewis e edita o site de críticas ‘Undercurrent’. O cara é f… Me deu a curiosidade de ler o capítulo referente a ‘O Incerto Amanhã’. Comecei como quem não quer nada e não consegui desgrudar até a última linha e depois prossegui na leitura. Não sabia, ou não me lembrava, que Preminger morreu de Alzheimer, o que deve ter sido uma coisa terrível para um prussiano autoritário que infernizava a vida de todo mundo nos sets de filmagem. Fujiwara conta o inferno que foi a filmagem em Louisiana. O filme tratava das relações entre brancos e negros logo após a 2ª Guerra e, 20 anos mais tarde, elas não haviam evoluído. No racista Sul dos EUA, o fato de um ator negro haver usado a piscina do motel levou a tiroteios e explosões – de bombas – e as populações das cidades que abrigavam a produção se recusavam a assistir às filmagens. Os atores filmavam na rua e ninguém para olhar. Ódio por toda parte. Preminger brigou feio com Faye Dunaway e ela rompeu o contrato de exclusividade que havia assinado com ele – antes de ‘Bonnie & Clyde’ –, indo à Suprema Corte por sua libertação dos grilhões de Otto. Achei uma parte muito interessante. Preminger, sempre irascível, respeitava Beah Richards, que faz a matriarca negra, a antiga ama de leite da personagem de Jane Fonda. Mas ela desembestou que não ia fazer uma cena do jeito que estava escrita, porque não era verdadeira do ponto de vista do negro. Preminger bateu pé. Queria que ela fizesse exatamente como escrita. Fujiwara dá ao capítulo, como título, a frase que Preminger teria dito, ou disse, a Beah – ‘Como você sabe que nunca fui negro?’, How Do You Knoy I’ve Never Been Black? Embora ‘O Incerto Amanhã’ tenha recebido críticas péssimas, as piores da carreira de Preminger, Fujiwara é respeitoso com o filme. ‘O Cardeal’, ele lembra, tratava dos temas do desenraizamento e da distância (a ansiedade do cardeal Glennon de viajar a Roma para participar do conclave que vai eleger o papa); ‘A Primeira Vitória’, da dispersão; e ‘O Incerto Amanhã’ do clamor humano para ocupar seu lugar no espaço. É o tema do filme, o ser e estar do homem no mundo, a ligação com a terra. Não me lembrava, sempre associei Preminger ao uso do plano-sequência, mas em ‘O Incerto Amanhã’ Fujiwara analisa como o cineasta integrou a lente zoom à sua mise-en-scène. É curioso, mas do outro lado do Atlântico, um autor, que também amo e teve um final difícil, mudava seu estilo ao integrar a zoom – Visconti, a partir de ‘Vagas Estrelas da Ursa’. O tema está zapeando na minha cabeça. Preciso pensar no que tudo isso representa. Ainda sobre Preminger. Até que ponto a frase dita a Beah Richards tem a ver com o fato de ele ter tido aquele tórrido affair com Dorothy Dandridge, sua estrela de ‘Carmen Jones’, a quem terminou por abandonar, e ela fragilizada nunca conseguiu se recuperar? Preminger lutou tanto por liberdade de expressão, fez aqueles musicais magníficos com elenco all black (o outro – ‘Porgy and Bess’), mas nunca assumiu a ligação, que permaneceu clandestina, com a star negra. O que ele estava tentando exorcizar na abordagem do racismo em ‘O Incerto Amanhã’? Foi logo depois deste filme que Preminger rompeu o acordo com Gypsy Rose Lee e se aproximou do filho que tivera com a famosa stripper. Rose – vejam o musical ‘Gypsy’, filmado por Mervyn LeRoy, com Rosalind Russell e Natalie Wood – havia exigido que ele se afastasse de Erik, mas Preminger encontrou o garoto na França e o integrou, não apenas à sua vida, mas também à empresa produtora. Fujiwara conta como os dois se assemelhavam fisicamente, mas Erik era o Preminger que não estourava por qualquer coisa. O livro pode-se ler como um romance e, como análise crítica, é brilhante.