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Luiz Carlos Merten

05 Janeiro 2010 | 23h03

Já tenho falado bastante sobre ‘Lula, o Filho do Brasil’, mas até agora não tinha dado maior atenção à trilha assinada por Antônio Pinto. É um compositor sofisticado – trabalhou com Michael Mann -, mas que tem um bom ouvido para o popular e nenhum pudor em assimilar o brega. Estava outro dia no Espaço Unibanco do Shopping Frei Caneca quando se abriu a porta da sala que exibia o filme de Fábio Barreto. O público foi saindo ao som de ‘Pau de Arara’, de Luiz Gonzaga. Me emociono só de pensar, mas minhas favoritas no CD são ‘Como Vai Você’, na voz de Antônio Marcos, e ‘A Última Canção’, cantada por Nana Caymmi. É incrível como certas músicas – bregas – foram incorporadas ao meu imaginário por causa do cinema. Sempre que me lembro de ‘O Amuleto de Ogum’, de Nelson Pereira dos Santos, a primeira coisa que me vem é a cena do baile, quando o apresentador anuncia ‘o canarinho do Gandu’ e entra aquele cara, que eu nem sei quem é, cantando ‘O show já terminou/Vamos voltar à realidade…’ Nana é sublime, mas, pensando bem, quando ela não é? Em Cannes, no ano passado, encontrei na Croisette, correndo de um filme para outro, Georges Gachot, que fez aquele documentário bonito sobre Maria Bethânia e que em maio trabalhava no seu outro documentário sobre Nana. Ele estava entusiasmado e no seu francês aportuguesado me disse que o começo estava de arrepiar – Nana canta, o que poderá surpreender muita gente, música sacra. Mal posso esperar para ver. E o Antônio Marcos, então? Podem me atirar quantas pedras quiserem, mas Antônio Marcos cantando ‘Como Vai Você’ para mim não é brega, é clássico. Me comove vê-lo tentar conter seu vozeirão para ser delicado em versos como ‘…que já modificou a minha vida’. E o Paulo Sérgio? Não sei por que, mas quando penso num o outro me vem, instantaneamente. Ambos tiveram mortes prematuras. Paulo Sérgio cantava Roberto melhor que o próprio – ‘Já nem sei dizer se sou feliz ou não…’ Coisa mais linda, tchê! Agora só o que me falta é alguém postar para dizer que a trilha de ‘Lula’ é ruim. Não é mesmo, como o filme também está longe de ser ruim. Nenhum filme que tenha Glória Pires, Milhem Cortaz e Rui Ricardo Diaz naquelas criações viscerais pode ser ruim. A propósito, de tudo o que escreveram contra o filme nos comentários do blog, nada me entristeceu mais do que o veneno da Tatiana, ironizando porque eu disse que ‘O Filho do Brasil’ tinha ido bem no Ceará e em Pernambuco. Tem gente que é caso perdido, de direita e só fala m… mesmo. Mas a Tatiana mexeu comigo. Pelo Cine Ceará não posso falar, porque não frequento, mas o público do Cine PE é um dos mais calorosos do Brasil. Tatiana devia assistir a uma daquelas sessões para tomar vergonha e não se achar superior à plateia de ‘nordestinos’ (coloco entre parênteses porque o preconceito, obviamente, é dela).