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Luiz Carlos Merten

08 Fevereiro 2009 | 13h01

BERLIM – Chabrol disse uma coisa linda que não tive espaço para colocar na matéria do jornal e, por isso, vou relatar aqui. O diretor falava da trama familiar, mais importante do que a criminal em ‘Bellamy’ (e, na verdade, a única que se soluciona). A tragédia do personagem de Depardieu é que ele tem esse irmão bêbado que tentou matar no passado. Não vou revelar o desfecho para não tirar a graça, quando ‘Bellamy’ passar no Brasil, mas é uma coisa forte e de alguma forma remete a uma situação que Depardieu estava vivendo na realidade. Chabrol finalizava ‘Bellamy’ quando Guillaume Depardieu morreu. Pai e filho mantinham uma relação complicada, mais até do que a dos irmãos do filme. Depardieu segurou o rojão em silêncio, sem nada comentar, mas Chabrol disse que era possível sentir como ele estava sofrendo. O velho parou a entrevista, ficou alguns minutos em silêncio, logo ele que é sempre tão divertido – tão rigolô, como dizem os franceses. Curioso, me lembrei agora, nessas associações que a mente faz, da frase final de ‘Don Segundo Sombra’, romance clássico do argentino Ricardo Guiraldes. O narrador diz que o personagem vai embora ‘como quien se desangra’. O silêncio de Chabrol me levou a pensar em Depardieu sofrendo – e vertendo seu sangue – pelo filho do qual era inimigo. Nunca vou esquecer, aqui mesmo em Berlim, no ano passado, a produtora ameaçando interromper a coletiva de ‘Ne Touchez pas la Hache’, de Jacques Rivette, se alguém fizesse mais uma pergunta relacionando Guillaume Depardieu a seu pai. Sei lá, até por ser pai aquilo me doeu profundamente.