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Luiz Carlos Merten

24 Março 2008 | 12h10

Fui ver ontem ‘Quartett’, no Centro Cultural Banco do Brasil, e não gostei nem um pouco da adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos. Quer dizer – gostei de algumas idéias no texto de… e de Guilherme Leme, e até viajei um pouco na memória, lembrando-me de ‘Anjos da Noite’, naquele surto pós-moderno no cinema paulista no começo dos anos 80. O filme de Wilson Barros era contemporâneo de ‘Cidade Oculta’, de Chico Botelho, ambos atraídos pela artificialidade dos simulacros, uma coisa que nunca me atraiu muito, mas acho que o elenco daquele filme segurava bem a onda – Zezé Motta, Guilherme, Marília Pêra, Antônio Fagundes. Embora já esteja em São Paulo há quase 20 anos [TEXTO]– cheguei em dezembro de 1988, comecei a escrever sobre cinema no ‘Estado’ em maio de 89 –, houve muita gente do meio cinematográfico que não cheguei a conhecer, mas que estava por aqui neste período. Wilson Barros foi um deles, Jairo Ferreira foi outro e, se eu lembro do Jairo, foi porque recebi da Olhos de Cão, produtora de Paulo Sacramento, o DVD duplo ‘Cinema de Invenção’, com os curtas e longas realizados pelo crítico e cineasta, sobre o qual produzi um texto no ‘Cultura’ de ontem. Nunca conversei com nenhum dos dois, é pena. Viajei também na lembrança das adaptações cinematográficas do texto de Choderlos de Laclos – os filmes de Stephen Frears (‘Ligações Perigosas’) e Milos Forman (‘Valmont’) e, principalmente, o de Roger Vadim, ‘As Ligações Amorosas’, de 1959, no qual Jeanne Moreau fazia a melhor de todas as marquesas de Merteuil e Gérard Philippe era um belo (em todos os sentidos) Valmont.[/TEXTO]Jeanne, Glenn Close, Annette Bening, todas as atrizes que, no cinema, fizeram Merteuil beberam na fonte da malvada Bette Davis e eu tenho de confessar que acredito que foi o filme de Vadim que liberou Jeanne Moreau para fazer ‘A Baía dos Anjos’, de Jacques Démy, e ‘Eva’, de Joseph Losey. Aliás, até agora não consegui entender como me passaram despercebidos dois ciclos – o de Démy, justamente, no CCBB (descobri ontem, ao ir ao teatro) e o de Jorge Amado no CineSesc (que descobri na sexta, por causa de uma reportagem relativa ao festival de documentários É Tudo Verdade, que começa depois de amanhã). Na sexta, enquanto esperava a chegada de meus entrevistados, dei uma olhada no filme da hora e era ‘Seara Vermelha’, que Alberto D’Abversa adaptou, em 1964, do romance de mesmo nome. Vi a cena em que a menina cede ao avanço do médico e perde a virgindade, para permitir que o pai, velho e debilitado, encontre os meios de emigrar para São Paulo, fugindo ao flagelo da seca. Seria louco se dissesse que gostei do que vi, mas gostei de ter visto (se vocês entenderem o paradoxo). A linguagem era teatral, mas a beleza da fotografia em preto-e-branco e a música, que eu achei que fosse de Remo Usai, mas fui conferir e descobri que era de Moacir Santos, ajustavam-se ao hieratismo da presença de Margarida Cardoso, uma atriz de teatro que pouco antes havia feito ‘A Primeira Missa’, de Lima Barreto. O ciclo de Jorge Amado ainda continua – amanhã à tarde com dois documentários: ‘Jorjamado no Cinema’, de Glauber Rocha, e ‘Jorge Amado’, de João Moreira Salles, que eu vou fazer força para rever. Gostaria de ter revisto ‘Lola’, que é o ‘meu’ Démy. Passou ontem às 5 da tarde. A odisséia de Ulisses vista pelo ângulo de Penélope, a mulher que espera, num filme que é a soma dos gêneros clássicos de Hollywood (musical, western etc). Em vez disso, vi ‘Quartett’ e, depois, lavei a alma porque fui ver ‘A Família Savage’. Aguardem no próximo post.