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Como fui me esquecer de Michael Powell?

Luiz Carlos Merten

30 Dezembro 2010 | 13h40

Não sei como me caiu a ficha. Estava em Porto e, ao chegar a São Paulo, tinha textos bem definidos para redigir – a retrospectiva de hoje na capa do ‘Caderno 2’, as críticas de ‘72 Horas’ e ‘Amor por Contrato’ (The Joneses), as ‘trocentas’ entrevistas que fiz por telefone, de filmes nacionais e estrangeiros que estreiam por agora. Com tudo isso, terminei esquecendo a retrospectiva da dupla Michael Powell/Emeric Pressburger, que começou terça no Centro Cultural Banco do Brasil. Lembrei-me agora há pouco. Powell/Pressburger! Há um culto a esses dois e ele beneficia principalmente a reputação do primeiro, que diretores como Martin Scorsese e Bertrand Tavernier costumam colocar nas nuvens. Tavernier, a quem entrevistei várias vezes, ao vivo ou por telefone, tem sido um interlocutor frequente sobre Michael Powell. Em Lyon, o Institut Lumière, que ele presidiu/preside, de forma honorária, foi dos primeiros a dedicar uma ampla retrospectiva ao diretor e ainda editou um livro, um álbum luxuoso, sobre sua vida e obra. Em Cannes, Scorsese se vestiu de gala para apresentar a versão restaurada de “Sapatinhos Vermelhos’. Lá estava a eterna viúva de Powell, a montadora Thelma Schoonmaker, que ganhou dois Oscars em filmes dirigidos por Scorsese (‘Touro Indomável’ e ‘Os Infiltrados’). Scorsese destacou o uso da cor, a fluidez da câmera, a integração das várias artes (cinema, teatro, dança etc). Agora mesmo, em ‘Tetro’, Coppola também presta sua homenagem a Powell/Pressburger incorporando cenas de ‘Contos de Hoffman’. Powell foi assistente de Rex Ingram – que depois fez o gênio da lâmpada na versão de ‘O Ladrão de Bagdá’ –, antes de virar diretor de fotografia, roteirista e, ele próprio, diretor. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, cita Lefèvre e Lacourbe, que escreveram – ‘O cinema é uma arte que, por vezes e com a ajuda de seus impactos puramente físicos, consegue atingir o coração e, depois, o espírito.’ Michael Powell, assinalam os críticos, foi um dos dois ou três grandes autores que conseguiram esse milagre. Embora ao custo de minimizar o aporte de Pressburger – basicamente, ele era escritor, concentrando-se na confecção do roteiro –, Scorsese e Tavernier dizem que o gênio da parceria era Powell e toda a invenção e audácia visual de filmes como ‘Coronel Blimp’, ‘Narciso Negro’, ‘Sapatinhos Vermelhos’ e ‘Coração Indômito’ deve-se a ele. Para um autor tão visual, e inventivo, é curioso que Powell tenha primeiro chamado a atenção por ‘The Edge of the World’, de recorte documentário, muito influenciado pelo Robert Flaherty de ‘O Homem de Aran’. Encerrada a dupla, ele fez sozinho, por volta de 1960, ‘A Tortura do Medo’, Peeping Tom, terror com Karl Böhm como serial killer que mata mulheres com sua câmera, tentando arrancar delas, nos estertores, a definitiva expressão de dor (ou de êxtase, na morte). Tentei emplacar uma matéria sobre o ciclo no ‘Caderno 2’ de amanhã ou depois, mas são edições pré-planejadas, com retrospectivas e o escambau. Espero que o post cumpra seu papel de despertar nos cinéfilos o desejo de ir ao CCBB. Michael Powell (e Emeric Pressburger) vale(m) o esforço.

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