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Como esquecer… ‘Tropa 2’?

Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2010 | 10h15

Fui rever ontem – em plena Mostra! – ‘Como Esquecer’. Cheguei tarde de Sorocaba e perdi a sessão de ‘Mistérios de Lisboa’. Sempre que vou escrever o título do filme de Raoul Ruiz me vem ‘Os Mistérios de Paris’, de Eugène Sue, que li na antiga Coleção Saraiva, que rivalizava com a Terramarear como principal fonte de minhas leituras de garoto e adolescente. Mas, enfim, cheguei num horário esquisito e terminei vendo ‘Piranha 3-D’ para matar tempo. Saí do cinema pensando como seria divertido se um desses diretores de besteirol, Jim Abrahms ou David Zucker, fizesse uma paródia da fantasia de Alejandre Aja. As piranhas em terceira dimensão saem da tela e uma dela avança para o público, causando os estragos que você pode imaginar na plateia. De volta a ‘Como Esquecer’, gostei mais ainda do filme da dupla Malu De Martino/Elisa Tolomelli. E elas, se lerem o post, vão gostar de saber que a sala estava lotada. Um crítico do Rio, um amigo, não lembro se Rodrigo Fonseca ou André Miranda, caiu matando nos diálogos do filme, que achou pueris (embora ressaltando várias outras qualidades de ‘Como Esquecer’, é o que me dizem). Meu amigo Dib Carneiro, autor de teatro, grande tradutor (do ‘Calígula’, de Albert Camus) foi quem me chamou a atenção como o filme é bem escrito. As patadas que a personagem de Ana Paula Arósio dá nos outros para manter as pessoas à distância. São lambadas certeiras, mas só o texto não adiantaria. É preciso a atriz, e o ator (Murilo Rosa) para fazê-la desabar numa cena muito interessante. Mas voltei a ‘Como Esquecer’ por outro motivo. Há uma cena, na qual as pessoas talvez nem prestem muita atenção. É a da banca, quando a acadêmica polemiza com a garota que apresenta sua tese sobre literatura feminina. Ela, a estudante, ‘ousa’ comparar Cassandra Rios com Virginia Woolf, ao que a professora etiqueta a ´primeira como ‘subliteratura’ e o terceiro examinador diz que absurdo é estabelecer essa distinção, Virginia, grande literatura, Cassandra, subliteratura. Fiquei com aquilo na cabeça. Fui fazer outro dia uma pesquisa na internet – sim, às vezes eu faço – e encontrei um texto sobre ‘Tropa de Elite 2’. (É o que mais existe atualmente na rede, textos sobre ‘Tropa 2’.) O filme tem ‘problemas’, como se diz. Uma cena emblemática é aquela em que o Coronel Nascimento chega ao restaurante para ser exonerado e é aplaudido pela elite que ali come. Ele não ordenou o ataque na cadeia, mas as pessoas, que não sabem, o aplaudem pelo que não fez e o governador mantém Nascimento no cargo. Isso me leva a outra cena do filme, quando Nascimento cobre de pancada o político corrupto. A plateia tem aplaudido a cena. Eu também já falei que político sem respeito tem de apanhar, mas nas urnas etc e tal. O que me leva à conversa que tive com Wagner Moura em Campinas, na manhã seguinte à pré-estreia do filme em Paulínia. Wagner, tão correto, eleitor de Marina Silva no primeiro turno – a propósito, não sei se ele declarou algum apoio no segundo turno, mas Wagner me havia dito que, mesmo insatisfeito com o fisiologismo do PT, não conseguia se imaginar votando no PSDB -, como se sentira fazendo a cena. Afinal, Nascimento dá ali uma de Charles Bronson. Depois disso, Wagner já declarou que lavou a alma fazendo a cena, mas lá, em Campinas, ele me disse apenas que quem batia era Nascimento e não Wagner Moura e, se era para servir o personagem, ele não via problema nenhum. A cena me remete à do restaurante. José Padilha e Wagner são f… As pessoas criticam a cena do restaurante porque não há uma condenação do aplauso do público,. como não há da atitude de Nascimento nem do público que está aplaudindo o filme na realidade. Ó céus, como é politicamente incorreto. O que eu me pergunto é o seguinte. O filme constrói um personagem muito crítico e vigoroso. Como homem do sistema, ele percebe o horror que criou e o combate. Isso me lembra o desfecho de ‘Perseguição Implacável’, de Don Siegel, quando Clint Eastwood/Dirty Harry, consciente de que foi longe demais, joga a arma no chão. Naquela época, por aquele filme, o xerife Clint estava esculpindo a reputação de machão, porco chauvinista e fascista. Quando foi que ele mudou, para virar a unanimidade em que se transformou? O filme de Padilha, como o de Don Siegel – mas a ponte é minha, não creio que o diretor tenha pensado nisso -, explica o personagem por seus gestos, sem psicologizar. Leiam Shakespeare’, ‘Hamlet’, ‘Ricardo III’ e ‘Macbeth’. Críticos são pessoas como as outras, exceto que a maioria realmente deve pensar que o público é burro e precisa ser tutelado. A construção dramática está lá, uma cena ilumina – e desconstrói – a outra. Se a gente não acreditar na capacidade do público de ‘entender’ e ficar cobrando que aplaude errado, por que vamos acreditar na sua capacidade de escolher, por meio do voto? Ah, a tentação do fascismo. Está onde menos se espera.