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Como é que é?

Luiz Carlos Merten

07 Maio 2015 | 14h15

RECIFE – Cá estou eu, desde anteontem, no Cine PE. Não estou dando conta de escrever sobre o festival, de tantas matérias que tenho enviado para o jornal, mais os debates, os filmes etc. Tenho detectado problemas de som no novo palco do Festival do Recife – o cine São Luiz, que já abriga o festival de Kleber Mendonça Filho, o Janela Internacional do Recife. Ando desesperado, me sentindo o velhinho da Praça é Nossa, tentando ouvir o que as pessoas dizem na tela. Como é que é? Na terça-feira à noite, os problemas de som acabaram com a projeção de Aqui Deste Lugar, documentário de Sérgio Machado e Fernando Lobo que começa como uma abordagem da Bolsa Família e termina sendo sobre a família brasileira – e os sonhos de uma moçada que ontem passava fome e hoje já se permite ter expectativas quanto ao futuro. Só isso já mostra como o Brasil mudou nos últimos anos, mas tivemos um debate muito acirrado, uma amostra do ódio que ameaça devorar as entranhas desse País. No dia da manifestação contra Dilma, na Av. Paulista, o clima foi de guerra e o debate foi pautado pelo mesmo xiismo. Tivemos ontem à noite um programa muito interessante e o debate de hoje foi bem mais produtivo – e menos raivoso. Gostei demais do documentário (de curta-metragem) Bajado, de Marcelo Pinheiro, que formou um duplo muito interessante com o curta de ficção Brócolis, de Valentina Homem. Pinheiro retrata Bajado como o artista na janela, e era dali que ele via Olinda e os tipos humanos que percorrem sua obra. Valentina também teve como imagem deflagradora outra janela, aquela pela qual uma mulher olha num quadro de Edward Hopper. A cor no filme dele, a montagem no dela, e em ambos a janela como metáfora do cinema, e da vida. Seguiram-se dois longas, um documentário e outro de ficção. O Gigantesco Imã, de Petrônio e Tiago Scorza, documenta o cotidiano de um inventor que se utiliza de sucata para suas criações. De novo ressenti-me com os problemas de som que me impediram de ouvir muita coisa, mas o próprio Petrônio me tranquilizou reclamando da projeção (do som) antes que eu o fizesse. E o filme intriga – não será essa ideia da invenção, do material de que se dispõe e da paixão que move o inventor, uma metáfora da outra paixão, a que move os cineastas? E logo veio a ficção Permanência, de Leonardo Lacca, sobre fotógrafo pernambucano em São Paulo e o filme interpretado por Irandhyr Santos curiosamente dialoga com Obra, de Gregorio Graziosi, também com Irandhyr. No final dos créditos, a informação – Graziosi foi consultor do roteiro de Lacca. Permanência é muito bem-feito, muito bem interpretado e tem suas ousadias, como um nu frontal de Laila Pas que, mais de 50 anos depois de Norma Bengell em Os Cafajestes, de Ruy Guerra, ainda deu o que o que falar. É interessante que os diretores do Imã tenham revelado que seu personagem é bastardo, um detalhe que não colocaram no filme porque seu recorte é outro, e que Irandhyr também seja bastardo em Permanência. Assinalei a coincidência e até me perguntei – considerando que a janela presente em ambos os curtas talvez obedecesse a uma intenção do curador – se Rodrigo Fonseca, que faz a curadoria, sabia disso ao juntar, com todo respeito, dois bastardos numa única noite? A observação desencadeou um comentário mordaz da plateia – deixa pra lá -, mas não creio que seja irrelevante, não. O fato de Irandhyr fazer um bastardo é decisivo em Permanência, que lida com o tempo, o afeto, a lembrança. Irandyr instala-se na casa da ex-mulher, casada com outro, e encontra o pai, em cuja casa não é admitido justamente por ser bastardo. Não creio ter captado toda a nuance do diálogo de Irandhyr com Genésio de Barros, que já merece o prêmio de coadjuvante, porque existe uma última frase que Irandhyr diz para ‘dentro’ – um sussurro, meio Marlon Brando – e eu não consegui captar. Ao mesmo tempo, creio que por mais importantes que sejam as palavras em Permanência, o filme é sobre o não dito, o que se guarda ou esconde – e Irandhyr é muito bom nisso, bom até demais, nessa coisa de se valer de ferramentas como as mãos, o corpo, o silêncio. Teremos hoje à noite O Amuleto, a aguardada incursão de Jefferson De pelo cinema de gênero, e que Inácio Araújo não me ouça, mas eu realmente espero que seja mais Mario Bava que George Romero, como Jefferson me cantou. Na sequência de O Amuleto, vou poder assistir, enfim, a Cavalo Dinheiro, o novo longa de Pedro Costa, que perdi no Festival do Rio do ano passado, por problemas com a exibição digital. O filme foi reprogramado aqui no Recife porque a primeira sessão anunciada também não deu certo. Vamos lá, ao reencontro de Ventura, o personagem emblemático do diretor mais cultuado pela jovem crítica (no Brasil e no mundo).