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Cultura » Como e quando Zizek perdeu a sessão de ‘Avatar’

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Luiz Carlos Merten

10 Maio 2010 | 18h58

PARIS – Não estou muito seguro de como nem por quê, mas ‘acho’ que Antônio Gonçalves Filho entrevistou o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek. Me lembro de ter lido alguma coisa porque era uma discussão em torno de Andrei Tarkovski, autor que Toninho venera e que eu tenho a maior dificuldade para assimilar (com exceção de ‘Andrei Roublev’, seu único filme que realmente me interessa; ‘O Sacrifício’, tenho de confessar, para consternação de muitos de vocês, que me aborrece). Zizek é entrevistado por ‘Cahiers du CInéma’ na edição de abril da revista. A entrevista merece ir para os anais. O título é elucidativo – ‘Elementos de autocrítica (ou como eu perdi a sessão de ‘Avatar’)’. Zizek havia escrito na edição anterior de ‘Cahiers’ um texto sobre ‘Avatar’. Agora, ele confessa, na maior tranqüilidade, que teorizou sem ter visto o épico futurista de James Cameron. Quando os entrevistadores – Stéphane Delorme e Jean-Philippe Tessé – se escandalizam, Zizek diz que não é nada demais. No livro de ensaios ‘Jacques Lacan em Hollywood e alhures’, há um longo capítulo sobre Roberto Rossellini, que ele também afirma desconhecer, pelo menos na época em que escreveu o texto. Zizek chega a dizer que tentou, mas não teve acesso aos filmes. Depois, com conhecimento de causa, esculhamba o grande Roberto, dizendo que gosta somente de ‘Viagem na Itália’ e ‘De Crápula a Herói’. Eu, no fundo, meio que concordo. Tenho uma admiração intelectual, fria, por ‘Viaggio in Italia’ e minha viagem é em ‘Il Generale Della Rovere’, com aquele personagem maravilhoso interpretado por Vittorio De Sica. Por que estou contando isso? Porque achei curioso, aliás, sensacional, e talvez, no fundo, sei lá, tudo isso coloque em xeque a ‘academia’. Zizek comenta aquela lista de filmes da década de ‘Cahiers’. Cobre ‘Guerra dos Mundos’, de Spielberg, de elogios (e diz que viu o filme). Também gosta de ‘Mullolhand Drive’, de David Lynch, principalmente por causa de Naomi Watts, e diz que tem o DVD, mas não viu ‘Inland Empire’ porque os amigos disseram que ele iria se decepcionar. O melhor do texto é uma observação de Zizek sobre Alfred Hitchcock, que ele venera. Seria matéria de discussão filosófica, mas ele considera Hitchcock hegeliano, naquele sentido de que Hegel, fenomenologista do espírito, dizia que o mal verdadeiro está nos olhos daqueles que veem o mal em toda parte (e isso, segundo ele, é a essência do mestre do suspense). Gostei também de uma observação de Zizek cagando, me desculpem a vulgaridade, em Gus Van Sant, mas é que eu não tenho muita paciência com esse fraudulento que nove entre dez colegas meus tratam como gênio. Zizek acha interessante a idéia de passar o cult de Hitchcock pela câmera, de novo – e o ‘Psicose’ original, restaurado, é uma das atrações de Cannes Classics neste ano -, mas acha burrice as inovações de Van Sant. Por exemplo, quando o Norman dele espia Marion Crane, antes do assassinato, dá para ver que Van Sant faz com que ele esteja se masturbando. É ridículo, como Zizek mata a charada. Psicanálise primitiva. Se Norman é capaz de se masturbar olhando Marion, ele não precisaria matá-la. Tão simples, não?