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Como diria Roberto Carlos, ‘eu voltei’

Luiz Carlos Merten

28 Maio 2009 | 14h29

Olá! Cá estou de volta em São Paulo. Cheguei pela manhã, passei em casa e agora estou na redação do ‘Estado’, já redigindo os filmes na TV de domingo. Aproveitei ontem para ver, em Paris, um filme de Ken Loach a que nunca assistira – ‘Kes’, na verdade, o segundo do diretor de ‘Looking for Eric’. Ken, naquela época, assinava-se Kenneth e o filme surgiu após uma série de curtas e telefilmes. Seu primeiro longa pára cinema havia sido ‘Poor Cow’, lançado no Brasil como ‘A Lágrima Secreta’, título que sugere um melô descabelado e nada tem a ver com o ‘Pobre Vaca’, aplicado à personagem de Carol White, no original. ‘Kes’ foi o filme que deu projeção internacional a Kenneth Loach, ao integrar a programação da Semana da Crítica de 1969, em Cannes. Loach tornou-se depois um habitué do festival, até receber a Palma de Ouro por ‘Ventos da Liberdade’. Seus primeiros filmes tratavam, invariavelmente, da família, mas já se pautavam pelo realismo social que permanece a marca do diretor, até mesmo numa fábula (deliciosa) como o filme com Eric Cantona. ‘Kes’ conta a história desse menino, numa pequena cidade de mineiros. A família é disfuncional e ele não tem interesse por nada. Na escola, é zero à esquerda, mas o professor descobre o que o motiva. O garoto tem um falcão, que domesticou. Quando ele conta aos colegas como domesticou a ave, a turma inteira para e o menino revela um entusiasmo que não sente por mais nada, ou ninguém. Mas ele tem uma disputa com o irmão mais velho e o cara… Achei o filme forte, emocionante e o garoto David Bradley é genial. Até agora não tive tempo de pesquisar – existe um David Bradley ator de kung fu, acho que na série ‘American Ninja’. Será o mesmo cara? Pela idade, até que poderia ser. É curioso, mas saí do cinema, o Reflets Médicis, pensando em outra representação da infância na classe operária inglesa – ‘Billy Elliott’, de Stephen Daldry. Lá, o garoto tinha apoio da família para realizar seu sonho de virar bailarino e o pai chegava a furar uma greve. Sei que tem gente que detesta o filme do Daldry, mas não sei se é pela política ou pela viadagem (que não tem), essa coisa de dança, que alguns ainda encaram com preconceito. Diferentes como são, os dois filmes fazem um arco muito interessante para falar sobre família. Estou escrevendo e me veio a cena em que Billy se despede da avó e ela sabe que nunca mais vai vê-lo. P… filme. E o do Loach, então? Ele faria, a seguir, em 1972, ‘Vida em Família’, baseado nas teorias do anti-psiquiatra R.D. Laing, que instalou uma comunidade alternativa em Londres, como é que se chamava? Archway, alguma coisa assim. Ainda tinha algumas horas antes de ir para o aeroporto e o difícil era escolher o que ver. Terminei optando por ‘Red United Army’, de Koji Wakamatsu, que havia recebido uma menção em Berlim, em 2008, no ano do Urso de Ouro para ‘Tropa de Elite’. O filme de Wakamatsu, que integrava as mostras paralelas, trata de um grupo terrorista japonês. Nos anos 70, o radicalismo político leva 14 de seus integrantes a um processo de destruição enquanto discutem política e fazem um treinamento nas montanhas. Depois do realismo à flor da pele de Kenneth Loach o rigor ideológico de Wakamatsu, seu cinema pós-militante, me deixou meio perturbado. Não me lembro se o filme passou na Mostra de São Paulo ou no Festival do Rio. Se pesquisarem United Red Army no You Tube vocês vão encontrar pelo menos o trailer. Barra pesada…

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