Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Como Cartola, não há

Cultura

Luiz Carlos Merten

02 Outubro 2006 | 20h14

Não é um filme ‘de’ Lírio Ferreira. Lírio co-assina a direção de Cartola com Hilton Lacerda, que foi parceiro dele no roteiro de seus longas anteriores. O filme é lindo. Lírio e Hilton partem da figura de Cartola para contar uma história que não é só do compositor, mas também é a do samba, a do Brasil do século passado e a do audiovisual brasileiro. Fiz a mediação do debate dos dois, mais o fotógrafo Aluisio Raulino, na tenda do Festival do Rio montada na Cinelândia. Não havia tanta gente, mas a quantidade foi substituída pela qualidade. O festival está muito musical, com filmes sobre samba, rap e afro-reggae. Cartola chega a ser focalizado em duplo – como documentário, pelo Lírio e pelo Hilton, e como personagem de ficção por Ricardo Van Steen em Noel – O Poeta da Vila. O documentário tem uma cena que já nasceu antológica. Houve um momento da vida dele em que Cartola desapareceu. Surgiram versões de que teria morrido, que isso e aquilo. A tela fica escura e o som segue rolando. A platéia do Cine Odeon BR reagiu, pensando que era um problema na projeção. Imagino que, em todo lugar em que Cartola passar, a reação da platéia será a mesma. É uma audácia dos diretores. Nenhum Motivo Explica a Guerra, de Cacá Diegues e Rafael Drambaud, sobre o Afro-Reggae, é forte, mas como documentário é um tanto tradicional demais. Lírio e Hilton não têm medo de ousar. E eu, pelo menos, fiquei esperando pelo momento em que Beth Carvalho entraria cantando aquele verso imortal – As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/o perfume que roubam de ti. A música, a mais famosa de Cartola, teve várias versões. O documentário faz um clipe de quatro – um castelhano, na rua; Beth Carvalho, claro; Altemar Dutra, com aquele vozeirão; e o próprio Cartola, com sua delicadeza intimista de fazer inveja a João Gilberto. Cartola nasceu no ano em que Machado de Assis morreu. O filme começa pelo fim, pela morte do Cartola, como Memórias Póstumas de Brás Cubas. É todo criativo. Mestre Nelson Pereira dos Santos, que preside o júri da Première Brasil, vai ter trabalho para premiar o melhor, entre tanta coisa boa.

Encontrou algum erro? Entre em contato