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Cultura » Como anda, no cinema brasileiro, a arte de atuar?

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Luiz Carlos Merten

20 Dezembro 2006 | 09h35

Foi muito legal o encontro com Selton Mello no Rio, no set de Meu Nome não É Johnny. Ele sente cheiro de um bom filme. Elogia o diretor Mauro Lima. Olhando os dois que reviam uma cena no monitor de vídeo, podia-se ter ali um vislumbre do rito de passagem no cinema brasileiro. Dois – na segunda-feira, Gustavo Dahl, ligado ao Cinema Novo, ex-presidente do Concine, deixou a Ancine, substituído por Manuel Rangel, da nova geração. Os jovens não estão fazendo apenas algumas das melhores coisas do cinema brasileiro atual (as melhores). Estão fazendo também a política do cinema. De volta ao Selton, ele diz que Meu Nome não é Johnny representa algo novo em sua carreira. Pela primeira vez, está criando um personagem real e contemporâneo. João Gulherme Estrela visita o set de filmagem. Jovem da elite carioca, ele virou traficante, mas não o traficante de morro, de arma na mão. João, ou Johnny, representou outra coisa, outro momento. Surgido numa família estruturada, o cara virou viciado sem pisar na favela e traficante sem disparar um só tiro. Traficante de confiança da elite da Zona Sul, colocou o pé na Europa para ampliar sua rede de influência. Sexo, droga, poder, dinheiro e rock. A farra terminou quando ele foi preso e conheceu o inferno da cadeia. A cena que vi ser rodada era a da chegada do Johnny na cadeia, recepcionado por Charles, Flávio Bauraqui, que manda ali dentro. Selton me disse que foi uma experiência e tanto ter o João real por perto. Como João não é um personagem muito conhecido, não tem uma cara para o público – como tinha o Cazuza que Daniel de Oliveira interpretou tão bem no filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho –, ele pôde criar o seu Johnny com toda liberdade. Selton está no 16º filme. Talvez seja o ator que mais deu cara ao cinema brasileiro da retomada. Ele anda preocupado com a ditadura da preparação de elenco que se instalou no cinema brasileiro. Selton nunca entrou nessa e, vendo-o representar com Flávio Bauraqui, você chega à conclusão de que não é necessário. Selton se pergunta se Lázaro Ramos e Wagner Moura seriam menos geniais sem a preparação da Fátima Toledo em Cidade Baixa? A questão é complexa. Por que isso está acontecendo? Falei no poder aos diretores jovens no cinema brasileiro, mas não serão eles os que mais utilizam o recurso? E por que? Os antigos, Jabor, por exemplo, falando das duas Fernandas, a Montenegro em Tudo Bem, a Torres em Eu Sei Que Vou Te Amar, disse que um de seus prazeres foi justamante trabalhar com atrizes tão grandes, construir com elas as personagens. Mas Jabor tinha feedback, havia sido crítico de teatro, possuía noções de técnica de interpretação. O cinema brasileiro atual está revirando seu eixo. Antigamente, para colocar a cara do Brasil na tela, o autores do Cinema Novo, todos jovens de classe média, iam ao morro, ao sertão. Hoje, uma nova geração de invasores da classe média continua usando a câmera como instrumento, mas agora os jovens já vão preparados e com um olhar anterior ao deles. Vou chutar e tento ordenar as idéias depois – tenho matérias urgentes do dia no jornal –, mas acho que o cinema brasileiro, ao reinventar o Cinema Novo, está construindo um neo-neo-realismo que necessita de caras novas, de atores não profissionais, para colocar o País real na tela, de volta. O ator, hoje, no Brasil, é o de TV, que vira celebridade. O anônimo vira estrela no Big Brother. Como trabalhar com o ator, hoje, no cinema brasileiro? Não vejo uma atriz de TV que pudesse substituir a Hermila Guedes de O Céu de Suely, mas, por outro lado, o Selton, um ator de TV, se reinventa a cada papel e eu não consigo imaginar ninguém melhor que ele em O Cheiro do Ralo. Hermila teve e precisou de preparação. Selton, não. Mastroianni, no documentário Uma Vida Doce, diz coisas ótimas sobre a técnica e a falta de, tomando por base a experiência do neo-realismo italiano, que privilegiava os não profissionais. Mastroianni reclama do diretor que ficava agredindo a atriz no set, para fazê-la chorar, coisa que uma verdadeira atriz conseguiria, sem problema. O risco atual é a preparação de elenco virar uma muleta sem a qual os diretores não possam caminhar sozinhos. Não quero tirar o mérito nem o emprego da Fátima Toledo, mas acho a questão interessante de discutir.