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Cultura » Como a mãe de Almodóvar foi parar num filme de Egoyan?

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Luiz Carlos Merten

10 Novembro 2006 | 11h17

Existem filmes que você vê e provocam um efeito imediato. Você gosta, não gosta. Existem outros que provocam um entusiasmo imediato e, depois, vão perdendo a força. Gostei muito de Babel, do Alejandro González-Iñárritu, quando vi pela primeira vez em Cannes, em maio. O impacto do filme me desmontou, mas, agora, quanto mais penso nele menos gosto, ou mais seus defeitos aparecem. E existem outros filmes que são bombas de efeito retardado. Os filmes de Atom Egoyan em geral funcionam assim comigo. Vejo, gosto, mas quase sempre preciso de um tempo, ou de uma distância, para deglutir tudo o que eles me oferecem. É o caso de O Fio da Inocência, Felicia’s Journey, que passa às 17h55 na TV paga (Telecine Cult). Egoyan foi revelado no Brasil pela Mostra. Cineasta egípcio de origem armênia e radicado no Canadá, ele tem este nome curioso, Atom, que foi uma homenagem prestada por seus pais à primeira usina atômica egípcia. Que raio de pais dão ao filho o nome de uma usina nuclear? Acho que vem daí essa fascinação que o Egoyan tem pelos aspectos, digamos, mais sombrios da natureza humana. Seus personagens são, em geral, perturbados – perversos, se forem julgasdos por padrões convencionais de normalidade. A questão que Egoyan levanta é – que convenções são essas, e que normalidade? É um diretor que não julga seus pervertidos ou criminosos. Eles são humanos como o Bob Hoskins de O Fio da Inocência, marcado pela influência da mãe, que tinha um programa de culinária na TV. Hoskins é o tipo do sujeito afável. Na verdade, é um serial killer que abriga em sua casa Felícia, a garota que fugiu para procurar o namorado que a engravidou. Egoyan direciona o filme dele para o suspense, mas não é um suspense hollywoodiano. Fosse outro o diretor e a coisa seria muito mais objetiva – conseguirá a policiai salvar a garota? Egoyan filma com distanciamento, com frieza, como se visse seus personagens ao microscópio. A tensão é mais interna. As cenas com a mulher dele, Arsinée Khanjian, que faz, levemente caricatural, a mãe de Hoskins, são uma delícia. Ela parece uma personagem de Almodóvar que foi parar num filme de Atom Egoyan.