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Luiz Carlos Merten

07 Outubro 2006 | 15h37

Dei uma geral nos comentários, aos quais não tive muito tempo de prestar atenção durante a correria do Festival do Rio. Era postar ou comentar. Em princípio, não gosto muito de comentar o comentário, assim como não gosto de diretores que contestam a crítica e não porque tenha medo de polemizar com uns e outros (internautas e autores). Acho importate saber o que as pessoas pensam. Um blog, afinal, funciona pela troca, pela interação que provoca. Ocorre que eu acredito, profundamente, que o filme é do sujeito até a estréia. Depois, ele é nosso. Seu, meu, do público e ninguém vai nos dizer como temos de vê-lo. Às vezes o diretor faz o filme pensando numa coisa e a reação que nos provoca é outra. Estamos errados? Não tenho muita certeza. Acho que o processo do cinema só se completa quando a gente reformula no inconsciente o filme que viu. Eu refaço o meu filme; você refaz o seu. Ótimo se coincidirmos; legal se tivermos divergências. O mundo seria muito chato se todos fossem só azul, ou só vermelho. Adoro o Kiarostami, mas acho que cortaria os pulsos se todos os filmes a que assiasto fossem como Dez ou Cinco. É bom que sejam únicos, até para que a gente perceba melhor como são bons. Eu próprio, como jornalista especializado em cinema – crítico, vá lá que seja – tento cada vez menos convencer as pessoas de que estou certo, mas quero que a minha opinião fique registrada. Sempre tem gente para gostar de Dália Azul, de Crime Delicado, que não me dizem muita coisa ou o que dizem não acho muito interessante. O bom do cinema é a diversidade, de opiniões também. Sei que tem gente que adora o que escrevo. Fico feliz, honrado, é uma coisa que me valoriza, como indivíduo e como profissional. É, no limite, uma questão de identificação, mas eu espero que meus leitores (e internautas) vejam o filme com olhos próprios. O que eu disser é só uma contribuição. O meu filme não precisará ser o seu. De volta aos comentários, achei legal o que disseram o Rodrigo e o Wellington, que gostam tanto do Caco Hamburger. Eu também gosto, e gostei de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias. Quem não gostou, pelo visto, foi o júri da Première Brasil, no Festival do Rio. Li o que o Clécio e o Newman escreveram sobre o meu comentário de Os Infiltrados do Scorsese. Não tenho a menor intenção de revisar o Peckinpah, que é grande, que é visceral, que é autêntico. Não tenho mais muita paciência é por essa violência estetizada do Scorsese. O Aviador me aborrece profundamente. De Palma me aborreceu. Scarlett Johansson é linda de olhar em Dália Negra, mas a personagem dela é fake demais. E daí que é intencional? Achei que é risível. O problema não é ser fake (falso), em si. Nicole Kidman também é fake em Moulin Rouge, mas tem aquela lágrima dela que é verdadera, que a mim evoca a Nadia de Rocco e Seus Irmãos, como o personagem de Ewan McGregor, com seu idealismo, evoca o próprio Rocco. Tive brigas homéricas com meu ex-chefe, Evaldo Mocarzel,que achava Moulin Rouge insuportável. Fui ler um pouco do que escreveram sobre Dália Negra e… Ora, se é isso, eu também entendi, mas daí a aceitar, a achar genial… Minha reação beirou a consternação. Se eu algum dia reconhecer que errei e que O Aviador é bom, vou pedir desculpas, embora, para dizer a verdade, acho que seria melhor me internarem, porque vou estar louco.