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Luiz Carlos Merten

18 Março 2008 | 15h45

Felipe interessou-se pelo livro com a entrevista que Elia Kazan concedeu ao crítico Michel Ciment e me pergunta se vai sair no Brasil. Não, Felipe, não vai. O livro é antigo, dos anos 70 – comprei uma edição em espanhol, não me lembro se no Uruguai ou na Argentina. Da mesma época, também é o livro com a entrevista que Joseph Losey concedeu a Tom Milne. Lamento muito que estes livros não tenham saído no Brasil, mas com exceção do Felipe – e de mim e mais algum leitor solto por aí – acho que as editoras devem ter feito suas pesquisas e chegado à conclusão de que não existe público para este tipo de produto. Aqui, meu filho, só as teorias do Eisenstein, as reedições de Glauber etc. Alguém poderia dizer que Kazan, Losey pertencem a outra época, mas agora, com o resgate proporcionado pelo DVD, estes (e outros) grandes autores ficaram mais próximos da gente, mesmo que o mercado não esteja fornecendo todos os filmes que gostaríamos de (re)ver. Amo o livro do Ciment, que termina com o que Kazan gostaria que fosse seu epitáfio – ‘Não fiz tudo o que gostaria e não gosto de tudo o que fiz, mas este sou eu. Esta é a minha vida.’ Acho que só isso já resume o que Kazan pensava da própria delação. Trotskista – conforme demonstrou em ‘Viva Zapata!’ -, ele dedurou os nomes de antigos camaradas comunistas em protesto contra o stalinismo que dominava o partido nos EUA. Ele explica que os nomes que dedurou na verdade foram uma confirmação, pois já haviam sido entregues antes, por outros. Foi mais uma coisa conceitual. Kazan sempre teve extrema consciência da gravidade do ato que praticou. Não se orgulhava dele. Será que foi um protesto antecipado contra os crimes do stalinismo, que só seriam tornados públicos no Congresso do Partido Comunista da URSS, em 1956? E, se fosse isso, ele teria perdão? Não fiz tudo o que gostaria, não gosto de tudo o que fiz. O que eu acho impressionante é que o Kazan ficou com tanto ódio, dele e dos outros, que foi fazer análise depois do episódio do macarthismo. Sua mulher foi a rocha moral em que ele se apoiou e, por isso, Kazan conta para Ciment que dirigiu, como uma homenagem a ela, as cenas de amor de Lee Remick e Montgomery Clift em ‘Rio Violento’ (Wild River), que são as mais líricas de sua carreira. O ódio era tão intenso que ele jurou que nunca mais ia se curvar, aceitar qualquer tipo de compromisso, que ia fazer só filmes críticos em relação à América. Jurou e cumpriu – vieram depois ‘Rio Violento’, ‘Clamor do Sexo’, ‘Terra do Sonho Distante’ (America, America), que eu morro de vontade de (re)ver. Lamento pelo Felipe, mas espero que ele se sinta estimulado a buscar o livro sobre Kazan. O mais bacana, Felipe, é que, sendo um livro de entrevistas, pode ser lido como um romance. Não tive esta sensação com nenhum outro livro de entrevistas, e menos ainda de entrevistas sobre cinema, que tenha lido, até hoje, em minha vida.

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