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Luiz Carlos Merten

23 Julho 2007 | 08h44

Repassei rapidinho os comentários aos posts de sexta-feira. Filipe reclama que os independentes não deram a Still Life, de Jia Zhang-Ke, o prêmio de pior filme da Mostra do ano passado e nem eu sugeri que tivessem dado. Deram o destaque de pior sessão, por causa da projeção, e é o que está escrito no post. Sei lá – como venho dos tempos da ditadura e já vi importantes filmes em condições muitíssimo piores, na clandestinidade mesmo (os filmes, não eu), se há uma coisa de que eu consigo me abstrair é de som ruim e até uma ou outra escorregadela no foco. Não quero dizer com isso que adore filmes malprojetados – só se fosse louco -, mas as condições de projeção nunca melhoraram um filme para mim nem me levaram a repudiar outro muito bom. O Régis ficou surpreso no debate quando concordei que Fassbinder é influenciado por Douglas Sirk, mas não acreditava no diálogo de Almodóvar com os dois. Régis pergunta se eu acho mesmo que Almodóvar é influenciado por Michael Curtiz? Régis deve ter ficado com a referência de Casablanca e aí, realmente, não tem nada a ver, mas quando o entrevistei em Cannes, no ano passado,Almodóvar contou que a origem de Volver estava numa notícia de jornal que leu em Porto Rico, sobre um sujeito separado da mulher e que queria tanto falar com ela que matou a sogra só para forçar o encontro dos dois no enterro! Não sobrou muita coisa – não sobrou nada – disso, mas foi assim que Volver começou e aí Almodóvar foi acrescentando situações, personagens, referências, influências. Uma delas – a idéia do restaurante e da relação mãe-filha – veio de Mildred Pierce, que Michael Curtiz realizou em 1945 e que deu a Joan Crawford o Oscar de melhor atriz daquele ano. Mildred Pierce chamou-se, no Brasil, Alma em Suplício e quando eu fiz a ponte entre Curtiz e Almodóvar era justamente baseado no fato de que o melodrama do Pedrito é noir, é criminal, e isso tem mais a ver com a produção da Warner, nos anos 40, da qual Curtiz foi um dos pilares, do que a da Universal, nos anos 50, da qual Sirk foi o rei. Foi nesse sentido e não porque eu ache que o Curtiz tenha sido o mestre do Almodóvar. Mas reparem em Mildred Pierce. Uma mulher forte, dominadora, um homem pusilânime. Almodóvar tem muito mais a ver com Curtiz – este Curtiz, pelo menos – do que com Sirk, onde as mulheres têm sempre o arrimo de Rock Hudson, que podia não ser straight na vida, mas na tela era o John Wayne do diretor, criando personagens de força e integridade que o faziam uma espécioe de matriz do homem, no universo da fantasia romântica