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Luiz Carlos Merten

06 Março 2007 | 11h07

Adoro atos falhos, os meus inclusive (ou principalmente). Quando postei que a minha trinca de filmes favoritos do Woody Allen era a formada por Hannah e Suas Irmãs, Zelig e A Rosa Púrpura do Cairo, fiquei com a sensação de que havia um quarto filme que estava esquecendo e até perguntei para o meu colega Pedro França Pinto como se chama a trinca de quatro? Às vezes me dá esses brancos. Ele disse – quadra. Pois bem, lendo os comentários de vocês sobre os melhores Woody Allens, dei de cara com o que faltava (e que não me dei o trabalho de procurar) – Manhattan! Como pude esquecer? Talvez pelo simples motivo de que estivesse falando de Allen e Mia Farrow e terminei escolhendo três filmes com ela.
Sobre Mia – Não discuto se ela é carreirista, acho mais que é neurótica de carteirinha, mas isso, enfim, já virou sinal de ‘normalidade’ (de perto, ninguém é normal, você sabe). O que quero dizer é o seguinte. Acho que Mia Farrow meio que se destruiu, e deve ter percebido isso, ao colar sua carreira à de Woody Allen. Na fase anterior, digam vocês o que disserem, acho que ela fez três grandes filmes – O Bebê de Rosemary, o mais famoso, do Polanski, mas também Cerimônia Secreta, do Losey, e John e Mary, do Peter Yates, com Dustin Hoffman. Este último sumiu. Nunca encontrei em DVD, nem na Virgin (em exposição, pelo menos). É aquele filme em que Dustin e Mia se conhecem numa festa, vão para a cama e o filmne já começa com os dois em casa. Acabaram de transar e vão começar a se conhecer. O diálogo é maravilhoso e vai construindo a relação. No final, o encontro de uma noite pode virar uma ligação duradoura. John e Mary é de 1969 e foi feito pelo Yates logo depois de Bullitt, com Steve McQueen. Conscientemente, ou não, até o Jabor bebeu na fonte do Yates quando fez, nos 80, Eu Te Amo, com Sônia Braga e Paulo César Pereio. Gostava demais do Yates. Ele tem uma meia-dúzia de filmes que amo. Bullitt, John e Mary, Os Quatro Picaretas, Os Amigos de Eddie Coyle e O Fiel Camareiro. E a Mia é genial no filme dele. Achava que ela era muito-muito boa. Com Woody Allen, enquanto foram casados, era maravilhosa. Pense nela como Hannah (e Suas Irmãs), como Alice. Esta última é a personagem mais doce que existe. Era uma ficção de homem apaixonado. Mia sempre foi muito mais dura e isso só apareceu na ruptura com WA. Lembrem dela em Cerimônia Secreta, tão parecida com a filha morta de Elizabeth Taylor que inicia uma relação doentia, de submissão e dominação, com a falsa mãe, ou então em outro filme, Terror Cego, do Fleischer, como aquela ceguinha dura na queda. Tenho cá comigo que a Mia se acomodou naquela fantasia do WA e, depois, rejeitada, virou monstro. Ele só gostou dela docinha como personagem de ficção. Na vida, gosta de mulheres duras. Basta lembrar do documentário da turnê da banda dele pela Europa. Soon-Yi é um horror, absolutamente mandona e dá para ver que ele está adorando ser mandado por ela. Quero comentar mais algumas coisas, de Eva e 300, mas o post ficou longo demais. Posto daqui a pouco.

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