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Luiz Carlos Merten

23 Dezembro 2006 | 12h29

Li com toda atenção os comentários sobre a meia-entrada e o celular. No caso do segundo, estava, obviamente, falando do excesso, da transformação do celular em muleta. Existe até um lado que pode ser interessante, mas não é este de ouvir conversa dos outros em todo lugar, até no banheiro. Há uma democratização, digamos assim, deste bem de consumo. Fui agora de manhã à Rua da Praia, a mais tradicional de Porto Alegre, que, aos sábados, vira um verdadeiro mercado persa. Antigamente, a Rua da Praia era um lugar de grifes, hoje foi tomada por marreteiros e lojas que vendem celular. Compra um e ganha o outro de graça. Como não acredito muito na generosidade das empresas, imagino que elas recuperem seu investimento no cartão pré-pago ou coisa que o valha. Não é preciso estar numa estrada escura, de pneu furado, para perceber o valor do celular. O problema é que, às vezes, o sinal não pega e, se fosse filme de terror, só ia pegar no quintal dos assassinos em série (não há outro assunto hoje em dia, no cinema deste gênero). Enfim, só quero acrescentar que não sonho em voltar à idade da pedra. Não prefiro o vinil – demorei anos, procurando na Virgin de várias locais aonde estive, no exterior, até achar o CD de três vinis que adorava. Um acho até que foi lançado no Brasil ¬ Eddie Gourmet e o Trio los Panchos cantando boleros. Os outros dois, La Fragua e Santa Maria de Iquique, são cantatas do Quilapayun e do Victor Jara, nos tempos da Unidade Popular de Allende, no Chile, quando ainda era possível sonhar com o socialismo democrátrico. Não sou ermitão, detesto isolamento. Não me convidem para temporadas no mato. Acampar, nem sonhar. Em férias, só vou para praias de capitais. Minha filha cai no mar e eu na cidade. Sou urbano até o último fio do meu cabelo grisalho. Quanto à meia-entrada, entendo a indignação do leitor que reclama que ela é privilégio, mas duvido – 1) que a eliminação da meia-entrada leve à diminuição do preço do ingresso; e 2) que a restauração do ingresso pleno (a inteira) crie uma nova era de justiça nos cinemas. Acho mais que corre o risco de afastar das salas quem pagava meia e certamente não melhora em nada a de quem não vai porque não tem dinheiro para meia nem inteira,e esta está longe de ser uma minoria. Enfim, o assunto é complexo e, em geral, sistemas que querem corrigir injustiças históricas quase sempre, ou muitas vezes, criam novas injustiças. A própria idéia de que os preços escorchantes são praticados só em capitais é discutível porque – 1) as salas hoje concentram-se nas capitais e nos shoppings; e 2) cada vez existem menos cinemas em cidades pequenas e até médias. Este é um mercado atendido preferencialmente pelo DVD, que virou hoje em dia o reino da pirataria. E por que algumas pessoas praticam e outras consomem, na verdade ambas praticam, a ativa e a passiva, a pirataria? Com licença, mas vou almoçar, se vocês quiserem continuem com a discussão…