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Luiz Carlos Merten

11 Junho 2009 | 14h15

Sister e Mauro Brider pegam carona no post sobre ‘De Repente, Califórnia’ – o ‘Sem ofender’ – para diferentes proposições. Ela me pergunta se já olhei o site do novo filme de Aluizio Abranches, que trata não apenas de homossexualismo, mas incesto. Não sou de navegar na rede, mas meu colega Ubiratan Brasil, que visitou o set, me havia falado do filme. Estou louco para ver. Existe uma teatralidade, um artificialismo assumido que me fascinam no cinema de Aluizio Abranches. Até hoje não sei se gosto mesmo de ‘Um Copo de Cólera’ e ‘As Três Marias’, acho que sim, mas são filmes que me intrigam, estimulam e que carrego comigo. O cara é doido, no bom sentido, fazendo o que ninguém faz no cinema brasileiro. Mas há algo no Abranches que me desconcerta. Já conversei com ele, o cara é gente fina, mas para quem tem uma proposta tão sofisticada ele me parece simples demais. Abranches não é o melhor defensor/teorizador do próprio cinema, mas isso talvez não tenha importância. O importante é o que ele propõe (e faz), não o que consegue verbalizar e que, às vezes, tende a banalizar o próprio esforço. Em geral ocorre o oposto no cinema brasileiro. Muita gente tem discursos sofisticadíssimos sobre os próprios filmes, mas quando a gente vai ver… Mauro Brider pergunta se conheço ‘Seminole’, western de Budd Boetticher com Rock Hudson, de 1953, que passou outro dia na TV paga. Cheguei a fazer um destaque nos filmes na TV do ‘Caderno 2’ para falar sobre ‘Seminole’. Até Leonard Maltin, que não parece ter muito apreço pelo filme em seu guia – ele dá 2 estrelas e meia de cotação, num total possível de 5 -, reconhece que se trata de um western ‘unusual’, no sentido de incomum, e é mesmo. Na época, o cinema norte-americano ainda não estava acostumado a fazer filmes pró-índio e, no limite, é disso que ‘Seminole’ trata. Rock Hudson faz o oficial da Cavalaria que tenta ajudar os índios da Flórida a permanecerem livres da lei do homem branco. Oscar Budd Boetticher foi não apenas um diretor extraordinário (de westerns), mas um personagem extraordinário. Tendo sido astro do futebol americano e, depois, toureiro, ele desembarcou em Hollywood como consultor de Rouben Mamoulián para as cenas de arena de ‘Sangue e Areia’, com Tyrone Power, baseado em Blasco Ibañez. Sua série de westerns com Randolph Scott – quase todos produzidos por Harry Joe Brown sobre roteiros do futuro diretor Burt Kennedy – era considerada por André Bazin o que talvez de mais simples, no sentido de essencial, mas também visceral, o gênero produziu nos anos 50. Os bangue-bangues de Budd Boetticher criam sempre um bandido que é o contraponto perfeito, o outro lado, ‘escuro’, do mocinho Randolph Scott e isso lhes dá grande complexidade dramática. ‘Seminole’ foi o primeiro western do diretor e, na minha lembrança, o fascínio do filme talvez se deva menos ao tema ‘nobre’ – a defesa do pele-vermelha – e mais ao inusitado do décor. Afinal, aqueles índios moram numa região pantanosa, tipo evergleades. Nada de pradarias, muito menos de Monument Valley… Boetticher realizou em 1960 o clássico de gângsteres ‘O Rei dos Facínoras’ (The Rise and Fall of Legs Diamond), com Ray Danton, sobre o qual falei aqui outro dia (como raro exemplo de filme ‘brechtiano’). Nunca vi o último filme que ele fez, ‘A Time for Dying’, em 1969, mas assisti ao documentário Aruzza, sobre o célebre toureiro, que Budd Boetticher fez ao longo de quatro anos, entre 1964 e 68, e nunca vi nada mais bonito do que a movimentação da câmera nas cenas de touradas. Aliás, teria de fazer um post só sobre touradas. Sei que tem gente que acha o esporte bárbaro, mas não é preciso lembrar Almodóvar, ‘Fale com Ela’, que é um grande filme. O documentário ‘Torero’, de Carlos Velo, e as cenas de arena de ‘O Momento da Verdade’, de Francisco Rosi – a solidão do toureiro diante do touro -, são a prova de que, como tema ‘dramático’, a tourada é 10.