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Luiz Carlos Merten

26 Abril 2007 | 10h31

Desculpem, mas ontem meu dia foi uma correria só e eu não encontrei tempo para um postezinho sequer. Na única hora que relaxei, vinha para o blog, mas, aí, estou lendo um policial que me prendeu e resolvi voltar ao livro, para ver se chego logo ao fim, mas o faço com tristeza. Tenho esse sentimento em relação a determinados livros, que nem precisam ser grande literatura. Por que têm de terminar? Certos filmes, também. Podia ficar vendo horas, horas… Mas, enfim, antes de postar alguma coisa sobre o Recife e as estréias de amanhã, quero responder a alguns comentários.
O Cássio me pergunta que filme italiano tem a ver com o Colateral, do Michael Mann? Nunca entrevistei o Mann e é uma frustração para mim, pois gostaria de esclarecer este ponto. Pode até ser que se trate de uma viagem minha, mas Colateral me lembra muito um filme existencial, filosófico, sem nenhum caráter de ação – Os Dias São Numerados, do Elio Petri, com Salvo Randone. Aquela história do cara que morre solitário no bonde (no filme do Petri) ou no metrô (Tom Cruise no de Mann). Não só o fato, em si, mas o signficado, a leitura metafórica que se pode fazer daí. A influência de Petri sobre Mann, para mim, continua em Miami Vice e, aí, sim, é O Assassino, belo filme com Marcello Mastroianni, cujo protagonista é a mais perfeita representação do herói sofista que o cinema já fez. Acho que esse sofismo tem tudo a ver com o cinema de Mann. Não sei se vocês sabem, mas Scorsese adora Michael Mann e acha Fogo contra Fogo, com Robert De Niro e Al Pacino, um dos grandes filmes do cinema americano. Scorsese é doido pelo cinema italiano. Acho que ele tasmbém percebeu esse vínculo do cinema de Mann com o da península, mesmo que estejamos falando do Petri menos conhecido, anterior a Investigação Sobre Um Cidadão e A Classe Operária Vai para o Paraíso (embora o meu favorito, de Petri, seja Condenado pela Máfia, também com Gian-Maria Volontè, esclareço).
Diogo e Antônio me pedem um comentário sobre cinema no rádio. Como eles ironizaram comigo, me chamando de Mr. Carlos Merten, vou devolver a brincadeira. Sorry, guys, mas nunca ouvi o programa – só ouço rádio em táxi ou no carro do jornal. Vamos ter de encaixar os horários. Mas eu próprio tenho um espaço na Eldorado, às sextas, para comentar as estréias da semana e em Porto Alegre, há muitos anos – não sei se ainda existe -, havia um programa do Hélio Nascimento, um dos grandes críticos desse País, mas que, tendo ficado em Porto, não é tão conhecido nem reverenciado como merecia. Hoje, nestes tempos de internet, até que nem tanto, mas há 15/20 anos, escrever da província era um problema. Falo por experiência própria. Quando cheguei em São Paulo, já tinha anos de estrada, mas foi como se tivesse de começar de novo. Ninguém fazia a mais remota idéia de quem eu era. Enfim. Gosto de falar sobre cinema no rádio, ou na rádio. Espero que os ouvintes gostem, também.
Para o Josafá, que me pede para pegar leve com o James Ivory – não pego, porque o cara foi hard sobre o Visconti, comigo. Mas não subestimo tanto assim o Ivory. Gosto de dois filmes dele. Um é Vestígios do Dia, claro – embora O Criado, do Losey, seja melhor (e Losey e Visconti também se odiavam, é curioso destacar). O outro, que talvez surpreenda vocês, é Uma Janela para o Amor, ao qual assisto sempre com prazer, quando estou zapeando na TV paga e entram as imagens de Lucy (Helena Bonham Carter) em Florença.
Para o Mário Latino, que se escandalizou comigo, por ter denegrido Laranja Mecânica para elogiar O Chacal de Nahueltoro. Mas a verdade é que as coisas ocorreram daquele jeito. O impacto que tive ao ver o filme do Littín, em Montevidéu, no começo dos anos 70, foi muito maior que o que tive com o filme de Kubrick, na mesma noite. Não conseguia parar de pensar no filme do Littín e, depois, quando revi Laranja no Brasil, anos mais tarde, aquelas bolinhas pretas tapando o sexo das pessoas eram tão ridículas que continuaram travando a minha adesão. Contei pelo registro e pelo que revela sobre mim, não para denegrir o grande Stanley, que forneceu um dos capítulos do meu livro Cinema – Entre a Realidade e o Artifício. Mas agradeço ao Mário, que vai me permitir relatar aqui algo interessante. Já contei que, no domingo, antes de vir para o Recife, entrevistei o Jorge Durán, diretor de É Proibido Proibir, que estréia amanhã. Conversa vai, conversa vem, contei ao Durán, que é chileno, que havia ganhado o DVD do Chacal e que era fã de carteirinha da obra-prima do Littín (e de todo o cinema latino-americano. Se não ‘a’ obra-prima, uma das, com certeza). A entrevista acabou ali. Durán me confessou que também ama o Chacal. Ficamos o restante do tempo só falando do filme de Littín e do seu significado para o cinema da América Latina.